Só rindo… mas não tem graça
O artigo de hoje tem uma clara inspiração numa ótima postagem do humorista La Peña no Instagram. É tão maravilhosa que não consegui ter outra ideia melhor para um artigo. Reproduzo, aqui, seus comentários a respeito da nova mania esdrúxula dos bolsonaristas fanáticos: rotular produtos como sendo de direita ou de esquerda. A ponto de se recusarem a usar sandálias Havaianas e a postar vídeos bebendo — ou fingindo que estão — o detergente Ypê, em apoio à marca cujo dono foi um dos patrocinadores da campanha de Jair Bolsonaro em 2022. É que não basta se pendurar em parabrisa de caminhão, rezar para pneu, chamar alienígenas com lanternas de celulares na cabeça, para salvar o Brasil, ou tomar chuva em acampamentos nas portas dos quartéis e várias outras maluquices do gênero. É preciso alimentar, renovar a parvonice.
Segundo ele, hoje em dia, no Brasil, nem sabão consegue ser neutro. E diz que não existe mais certo ou errado, par ou ímpar. “O que interessa mesmo é saber se produtos e serviços são de direita ou de esquerda”.
Ele se refere, em primeiro lugar, ao caso de uma série de produtos de um lote da marca Ypê cuja venda foi proibida pela Anvisa em razão da contaminação por bactéria no lote com numeração final 1. “Tá na cara, o detergente é de direita e a bactéria é de esquerda”, galhofa o comediante. “Ou será a Anvisa?”, provoca.
Na postagem, ele também lembra que muitos homens bolsonaristas, para demonstrar apoio à Ypê, postaram vídeos lavando louça com detergente da marca. Cenas perfeitas para uma “tirada de sarro” de La Peña. “Nesses tempos de red pill, em que cursos de masculinidade ensinam que tarefas domésticas cabem exclusivamente às mulheres, a defesa radical ao detergente cumpre um papel interessante. Mostra que ninguém se torna menos macho ao encarar uma pilha de pratos sujos, desde que use Ypê”, ironiza, citando em seguida o caso das sandálias Havaianas. Numa propaganda no final do ano passado, vocês devem lembrar, a atriz contratada — ninguém menos do que a premiada Fernanda Torres — recomenda que ninguém entrasse no ano novo com o pé direito, e sim com os dois pés. “Era óbvio que o chinelo era comunista”, ironiza o artista.
Mas tem mais: ao explicar a função técnica da Anvisa, que foi rotulada por militantes da direita radical como sendo “de esquerda”, La Peña lamenta o fato de parte do país achar que fiscalização sanitária é golpe de Estado.
“Os frascos dos produtos Ypê passaram a ser materiais de campanha para senadores, vice-prefeitos e deputados. Se a marca apoiou Bolsonaro, qualquer acusação contra ela só pode ser perseguição”.
E recomenda à Anvisa a criação de um novo departamento: não para investigar contaminação por bactérias, mas para investigar a contaminação cognitiva coletiva.
Oremos.
Artigo originariamente publicado no Jornal A União, com mudança apenas no título.

