ColunaGisa Veiga

Garotos cheios de medo

Sabe aquela ilustração, nos livros escolares, sobre a evolução da espécie humana? No início da fila, um homem pequeno, envergado, totalmente rústico; nas figuras seguintes, a aparência vai gradativamente melhorando, assim como a postura, até chegar à imagem do homem atual. Pois bem: um amigo com problemas de coluna me disse que sente como se estivesse na direção contrária.

No caso do amigo, trata-se de um problema de saúde. Mas, muita gente parece mesmo estar involuindo em vários aspectos. Por exemplo, agora deram para fazer postagens nas redes sociais contrárias ao voto feminino. E — pasmem — até mesmo mulheres estarão aderindo à ideia. Não são apenas algumas “tias” do Whatsapp que acham bacana a dominação masculina, mas até mesmo mulheres jovens, o que é ainda mais assustador.

Depois de tantas lutas que muitas gerações passadas travaram para conquistar o voto feminino, agora alguns engraçadinhos e engraçadinhas pregam o retrocesso. O que está acontecendo com essa gente?

O assunto ganhou uma estupenda repercussão quando o youtuber da extrema direita Paulo Figueiredo, neto do ex-presidente João Figueiredo, da época da ditadura militar, teve um surto de misoginia e intolerância ao afirmar que “mulheres não sabem votar”. Com base em quê?

O senador americano George Vest defendia, há mais de 130 anos, essa ideia, justificando que as mulheres são essencialmente emocionais, e que era preciso trazer “mais lógica para os assuntos públicos e menos sentimento”. E não é que o Paulo Figueiredo copiou a ideia direitinho, retrocedendo no tempo?

Para ele, mulher vota muito mal, especialmente as solteiras. Certamente porque ele acha que as casadas devem seguir o direcionamento político dos maridos. E mandou um recado a Michelle, alvo principal das ideias machistas do enteado Flávio Bolsonaro. “Acho, inclusive, Michelle, que você faz um desserviço às mulheres. As mulheres têm um estereótipo de não se darem bem na política porque não têm equilíbrio emocional, porque agem de forma emotiva, não racional. Eu acho que a Michelle acaba contribuindo com esse estereótipo”, diz o surtado youtuber.

Tenho minhas muitas reservas em relação a Michelle, mas aqui cabe um gesto de solidariedade de minha parte, porque jamais posso concordar com a fúria com que homens a estão atacando por ser… uma mulher. Uma mulher na política, que já demonstrou seu poder de arregimentação em torno do marido. Esses ataques, que tentam desqualificá-la, tem nome: violência política de gênero, bem comum entre brasileiros que retrocedem. Trata-se de uma tentativa de silenciamento das vozes femininas, especialmente daquelas com potencial de influenciar eleitores e conquistar grande notoriedade e espaços de poder. Querem retomar o confinamento das mulheres ao ambiente doméstico, estão incomodados com cotas nas candidaturas, assustados com o desempenho político do sexo oposto, o que denota um terrível temor e insegurança em relação ao avanço feminino.

Esses homens parecem uns garotos mimados, amedrontados diante de um “grande perigo” que os ameaça. Só que os que espalham esse discurso absurdo e odioso são homens adultos com o poder de fazer um grande desserviço à sociedade, mesmo agindo como garotos. E merecem punição.

De qualquer forma, fazem-se lembrar uma música do Leoni: “Garotos, como eu, sempre tão espertos, perto de uma mulher, são só garotos”.

 

Por Gisa Veiga

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