ColunaGisa Veiga

Eles buscam mais poder

Gisa Veiga

A humanidade está doente. Falo de doenças e de males psicológicos, inúmeros deles — medo, insegurança, ansiedade, depressão, insensibilidade, a quase inexistência de alteridade, entre outros. São males que afetam tanto homens como mulheres.

Mas é fato que as mulheres sofrem mais. Muito mais. Ainda existe disparidade de salários no mercado de trabalho, a misoginia e o machismo continuam amedrontando e até matando mulheres. É óbvio que entre homens e mulheres, estas são mais atacadas por adversidades.

Num país em que o machismo estrutural é evidente, não há a menor razão para se falar em fortalecimento da masculinidade, como se os homens fossem uns coitados, assediados diuturnamente e sofressem agressões e assassinatos do sexo oposto. O que mais querem os homens? Que tipo de fortalecimento é esse que eles buscam? Não deveriam ser as mulheres a buscar apoio, fortalecimento, proteção?

Nos últimos dias, a internet foi inundada por notícias sobre um projeto do ator Juliano Cazarré, intitulado “O farol e a forja”, que é basicamente um “curso” para ajudar os homens a “encontrar os valores da liderança masculina”. O ator diz que os homens estão fragilizados na sociedade e que é preciso fortalecer o público masculino. Oi? Fortalecer mais, Cazarré? Não são os homens que ocupam mais cargos de liderança do que as mulheres? Não são os homens que ainda vivem como se fossem donos de suas companheiras? O que foi que vocês perderam? Para mim, perderam o juízo, a sensatez, a habilidade de serem adultos funcionais e companheiros.

Houve uma enxurrada de críticas de diversos artistas, a maioria bem ácidas, outras mais satíricas, como um vídeo postado por Fábio Porchat. A atriz Marjorie Estiano fez uma postagem dirigida ao colega de profissão: “Juliano, você não criou, você só está reproduzindo em maior ou menor grau, na verdade, um discurso que já é ampla e profundamente difundido, enraizado e que mata mulheres todos os dias. Por favor, dê uma olhada para isso”, aconselhou.

Houve quem não entendesse a proposta do curso que, por sinal, é difícil de entender, mesmo. Alguns acreditam tratar-se de algo para ajudar homens a serem mais respeitosos, mais dignos e generosos. Aí, sim, seria até uma boa. Mas, pela boca do próprio Cazarré, como já assinalei, o evento é para fortalecer homens “fragilizados”, para turbinar a liderança masculina.

Caro Juliano, você parece perdido. Ora fala em formar “pais melhores”, ora em promover mais poder para os homens. Os homens estão precisando de curso para respeitar as escolhas femininas, aceitar lideranças de mulheres e relacionamentos desfeitos, ajustar suas emoções para não cometer violência doméstica… é disso que a sociedade está precisando.

 

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