As portas do inferno
No mês passado, um estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e da FIA Business School revelou, com dados dramáticos, o que muitos já suspeitavam: as apostas on-line, via bets, são o principal fator de endividamento das famílias brasileiras, superando o impacto do crédito e dos juros no orçamento doméstico. E, o mais estarrecedor: são as famílias financeiramente mais vulneráveis as principais atingidas.
Num mundo em que muitas pessoas estão emocionalmente instáveis, o risco do vício em jogo é uma realidade. E não adianta vir com comentários fáceis, do tipo “é preciso ter força de vontade”, ou “é muita irresponsabilidade”, porque a solução não é fácil.
Os brasileiros estão adoecendo, estão se viciando, e é preciso uma tomada de posição rigorosa por parte do Governo Federal e dos governos estaduais e municipais. A começar pela proibição de propaganda dessas plataformas em áreas públicas.
A pesquisa queria respostas para o endividamento dos brasileiros, de forma geral. Os organizadores da pesquisa no Brasil criaram, então, indicadores que calculam os impactos do peso do crédito sobre a renda, o patamar dos juros, o tempo das dívidas e as bets. O coeficiente associado às apostas atingiu 0,2255, superando com ampla margem o impacto do crédito sobre a renda (0,0440), dos juros ao consumidor (0,0709) e do tempo de dívida (-0,0017). Ou seja, segundo o que se publicou da pesquisa na imprensa, os impactos do crédito e dos juros, somados, ainda são menores que o das bets.
O Congresso Nacional decidiu legalizar essas empresas, o que vem preocupando seriamente o Governo Lula, a ponto de ele conceder entrevista defendendo a proibição total dessas plataformas no país. Enquanto o Congresso faz vistas grossas para o problema, o governo anunciou um programa que permite a utilização de recursos do FGTS para o pagamento de dívidas, muitas por apostas on-line, que chegam a ser estratosféricas e que provocaram, inclusive, alguns suicídios.
Se senadores e deputados federais defendem, em sua maioria, o funcionamento das bets, cabe aos governos limitar sua propaganda em áreas públicas, já que dificilmente empresas de comunicação, especialmente a Rede Globo, respaldadas por lei, se negariam a veicular esse tipo de propaganda.
A deputada federal Gleisi Hofmann foi uma das poucas vozes a subir o tom contra essas plataformas. Ainda em 2024, ela declarou: “”Subestimamos os efeitos nocivos e devastadores sobre o que isso causa à população brasileira. É como se a gente tivesse aberto as portas do inferno, não tínhamos noção do que isso poderia causar”.
Agora, todo mundo tem noção. Não há desculpa para fechar os olhos a essa epidemia.
Por Gisa Veiga

