domingo, fevereiro 15, 2026
ColunaGisa Veiga

Quero cultura na minha cesta básica

A dupla premiação do filme “O Agente Secreto” no Globo de Ouro, no último domingo, fez com que, como brasileira, eu sentisse orgulho do que nossos artistas e produtores vêm alcançando nos últimos anos, especialmente na área do cinema, tão vilipendiada no governo passado.

Passamos os quatro anos do governo Bolsonaro vendo o desmonte do setor cultural como um todo, como se seus produtos fossem de somenos importância. Trataram o setor como algo descartável, desprezível, ou como um luxo para poucos.

Reproduzo, aqui, uma antiga fala de Gilberto Gil: “Precisamos acabar com essa história de achar que cultura é algo extraordinário. A cultura é ordinária, é igual a feijão com arroz. É necessidade básica, tem que estar na mesa, tem que estar na cesta básica de todo mundo”. Concordo plenamente. E digo mais: a cultura também tem sua contribuição para a economia. Só para falar de cinema, é importante lembrar que o setor audiovisual no Brasil, aí incluindo o cinema, foi responsável por gerar 58% mais empregos que a fabricação de automóveis em 2024, segundo um estudo da Oxford Economics com dados do IBGE. A TV aberta foi a categoria de maior faturamento, empregabilidade e audiência — mesmo com o crescimento do streaming.

Vamos aos comparativos numéricos: o audiovisual empregou, em 2024, 120 mil pessoas diretamente. Já o setor de fabricação de automóveis, camionetas e utilitários empregou 76 mil pessoas diretamente em 2022, ou seja, 44 mil a menos, ainda segundo o IBGE. Outro estudo aponta dados ainda mais relevantes: divulgado pela Oxford Economics em outubro passado, o documento aponta que o setor que aqui delineamos movimentou mais de R$ 70,2 bilhões e gerou mais de 608,9 mil empregos naquele mesmo ano.

Segundo dados do Ingresso.com, uma das maiores plataformas de ingressos no país, de maio de 2024 a maio de 2025, a bilheteria dos filmes brasileiros cresceu 197%, sendo o melhor resultado desde o começo da pandemia. Não tenho em mãos os números do ano passado, que ainda estão em processo de levantamento. Mas, certamente, serão iguais ou até melhores do que em 2024, quando a média salarial do pessoal envolvido no audiovisual apresentou-se maior que o dobro da média nacional — R$ 6.800 por mês, contra R$ 3.225, respectivamente.

O premiado ator Wagner Moura disse, após a premiação de domingo, que é um ator que se posiciona e não tem medo das consequências que isso acarrete. Ele diz que é preciso ser verdadeiro. Os ataques a ele são constantes. Antes mesmo da premiação, o músico Roger Moreira, vocalista da banda Ultraje a Rigor e bolsonarista estupidamente radical, chamou Wagner de babaca, em postagem nas redes sociais, lembrando entrevista que este concedeu ao programa Roda Viva, anos atrás, em que ele se negou a comentar uma frase do então presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, com ataques ao filme “Marighella”, dirigido pelo ator.

Ele disse, na entrevista: “Eu não vou comentar. Eu não tenho nenhum respeito por nenhuma declaração que venha de qualquer pessoa que faça parte desse governo, nem desse cara, aquele outro cara da Secretaria de Cultura. Não vou comentar, porque não respeito. A gente precisa escolher os combates”.

Precisamos todos, Wagner. Apoiado!

 

Por Gisa Veiga

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *