Incidência de raios na PB até abril é maior do que em todo o ano de 2025
Um levantamento feito pelo Grupo Storm, responsável pelo monitoramento de eventos climáticos, em parceria com a Energisa Paraíba, apontou o registro de 271.804 descargas atmosféricas de 1º de janeiro até o dia 15 de abril. O número já é superior ao total contabilizado durante todo o ano de 2025. Diante de tantos casos, os especialistas orientam a população a proteger-se. Manter-se abrigado e evitar contato com a rede elétrica são os principais alertas.
Os raios podem provocar grandes danos, a exemplo de incêndios em áreas urbanas e rurais, queimar árvores, causar prejuízos à rede elétrica e a morte de pessoas ou animais. “O risco do raio é que não precisa, necessariamente, atingir uma pessoa para causar acidente. Ele pode se propagar pelo solo, estruturas metálicas ou redes elétricas. Por isso, mesmo quem não está exposto ao raio, ainda corre um risco significativo”, explicou Pabllo Araújo, doutor em engenharia civil e ambiental.
Uma pessoa, ao ser atingida por uma descarga elétrica pode ter como consequência uma parada cardíaca, queimadura graves e até danos neurológicos. Em caso de tempestades, a primeira orientação é abrigar-se em local seguro. “Mantenha-se longe de grandes descampados, terrenos baldios e praias. Os raios buscam os pontos mais altos para atingir e migrar para o solo. Evite também o contato com objetos metálicos, como cerca, portas e equipamentos elétricos que estejam externos, porque são condutores de energia”, alertou Pabllo.
Em casos de danos a postes e rompimento de cabos, o ideal é entrar em contato com a concessionária de energia. Bruno Correa, coordenador do Centro de Operações da Energisa, orienta que “o mais importante é que ninguém nunca tente manusear a rede elétrica, mesmo que os fios estejam sobre o chão. É necessário fazer o contato com a Energisa, por meio dos nossos canais de atendimento para que a intervenção seja feita por profissionais qualificados”.
Já o engenheiro Pabllo Araújo ressaltou que os cuidados também são necessários dentro de casa. “Recomenda-se não utilizar equipamentos que estejam ligados à energia, como celulares, notebooks e eletrodomésticos. Tire esses equipamentos eletrônicos da tomada, mantenha-se em um local seguro em casa, distantes de portas e janelas metálicas”.
Quem estiver no trânsito, deve permanecer dentro do veículo, que funciona como proteção contra descargas atmosféricas por conta do isolamento dos pneus. Os motoristas devem evitar estacionar seus veículos próximos a torres de transmissão e placas de propaganda. Durante as rajadas de vento, o ideal é não abrigar-se debaixo de árvores. Também não é recomendado ficar próximo de piscinas, lagos e açudes. Em casa, caso perceba que alguma parede apresenta umidade, não ligue equipamentos elétricos em tomadas instaladas nela e não faça manutenções quando estiver chovendo.
A Energisa informou que realiza o monitoramento permanente das previsões climáticas em todo estado, preparando previamente suas equipes para contingências ocasionadas por fortes chuvas. De acordo com a companhia, as principais ocorrências durante as chuvas são sobretensão e surtos elétricos, danos aos transformadores e para-raios, queima de isoladores, rompimento de cabos e falta de energia.
“Temos um plano estruturado para atuar em situações críticas, que visa uma atuação rápida e um menor impacto para os clientes. São medidas preventivas que permitem a alocação de equipes em pontos estratégicos, por exemplo, e uma recomposição mais rápida diante das adversidades climáticas apresentadas”, explicou Bruno Correa.
Maior incidência
A região com maior incidência de descargas atmosféricas é o Sertão. Ainda com base no monitoramento do Grupo Storm, o Sertão concentra mais de 76% das ocorrências. Em seguida aparece a região da Borborema, com 22% e, por último, o Litoral, com apenas 1% das descargas.
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) aponta os meses entre janeiro e abril como o período de maior incidência. A causa está associada ao calor intenso e a elevação da umidade do ar nesta época. O quadrimestre coincide exatamente com a principal época de chuva na região, já que sem nuvens carregadas, não existe a formação dos raios.
“As características climáticas do Sertão influenciam a nós termos essa maior incidência de raios que atingem a nossa região”, explicou Pabllo Araújo, professor doutor em engenharia civil e ambiental.
A descargas elétricas são geradas dentro das nuvens de chuva. O atrito entre partículas de água e gelo provoca uma reação de separação das cargas. A partir do momento em que as nuvens perdem a capacidade de isolamento, a descarga é atraída pelo solo, que também apresenta grande concentração de cargas elétricas. Eles chegam à Terra com uma alta intensidade de energia e temperatura elevada.
Livramento
No último dia cinco de abril, pleno domingo de Páscoa, Maria Aparecida Araújo Brito, de 67 anos, e Jarbas da Silva Brito, de 66, assistiam à transmissão da missa pela televisão, na sala de casa, pouco depois de saírem do quarto. O casal aposentado reside na rua Darci Antônio de Brito, bairro Santo Antônio, no município de Livramento. Segundo os moradores, o nome da cidade define exatamente o que eles viveram naquele fim de tarde.
Inesperadamente, o momento de oração foi interrompido por um forte barulho, seguido de muita fumaça, escombros e sensação de medo. A residência havia sido atingida por uma descarga atmosférica. Imagens de câmeras de segurança posicionadas em casas vizinhas registraram o momento. O clarão no céu e uma nuvem de poeira e fumaça saindo do telhado.
“Foi um pipoco tão grande, que passei uns três dias com dor de ouvido. Pode acreditar que foi o maior susto que eu já tive na minha vida. Na hora eu nem sabia o que estava acontecendo. Só vim entender depois, quando os vizinhos chegaram para ajudar”, afirmou Maria Aparecida. “Quem estava fora disse que viu uma bola de fogo em cima da minha casa”, acrescentou.
O raio precedeu uma forte chuva. O telhado do quarto foi danificado, o que causou um princípio de alagamento na casa. Mesmo depois do impacto, Jarbas e um filho do casal ainda se arriscaram no telhado para consertá-lo, atitude desaconselhada pela Energisa. “Era muita água dentro de casa e um fumaceiro preto, fedido. Eu me vi desesperada, porque nunca na minha vida imaginei passar por aquilo”, contou a aposentada.
O episódio aconteceu mesmo diante de alguns cuidados adotados em casa. Jarbas, que aposentou-se como guarda municipal, mantém o instinto de segurança e “desliga todas as tomadas quando vê o mundo se preparando para a chuva”, afirmou a esposa. No dia em que o fenômeno aconteceu, o céu não apresentava sinais de grandes precipitações e, por isso, as precauções não foram tomadas.
Os danos foram apenas materiais. Mesmo com a proporção do raio, Maria Aparecida e Jarbas saíram ilesos. Apenas equipamentos eletrônicos foram perdidos. “No quarto queimou a antena, a televisão e o receptor. Na sala só não queimou a televisão, mas até o aparelho da internet derreteu, não prestou mais para nada. E minha geladeira ficou com problema, tá parando de vez em quando, descongelando”, descreveu Aparecida.
O casal não procurou a concessionária de energia. Porém, o site da Energisa orienta que podem solicitar o ressarcimento de danos elétricos os clientes que tiveram aparelhos danificados por oscilações de energia e buscam compensação. A orientação é abrir uma solicitação em um dos canais de atendimento da empresa, que avalia as situações caso a caso.
Recuperados do susto e, aos poucos, reavendo os bens materiais, Maria Aparecida e Jarbas agradecem pelo livramento que viveram. “Foi Deus que botou a mão por cima de nós. Se a gente não tivesse saído do quarto para assistir a missa na sala, poderia ter acontecido coisa pior”, concluiu.
- Texto de Mirvan Lúcio para o Jornal A União deste domingo, 26/4
- Foto: Gleive Márcio Rodrigues de Souza/Pexels

