A guerra urbana no quintal do Palácio
O Moinho não é só a última favela do centro de São Paulo que é posta abaixo. É o laboratório de uma nova forma de gestão da extrema direita
Intercept Brasil*
8 de setembro entrou no susto. O celular vibrava sem parar e, antes do primeiro café, já veio a notícia: prenderam a Alessandra.
Liderança histórica da Favela do Moinho, Alê e sua filha Yasmim, também da Associação de Moradores, foram peça chave para impedir que as cerca de 900 famílias fossem expulsas trocando suas casas por uma dívida. Denunciaram a violência policial e se contrapuseram ao plano de remoção imposto pelo governo de Tarcísio de Freitas, do Republicanos de São Paulo. Elas conseguiram um novo acordo que, apesar de não impedir a retirada, incluiu a gratuitidade das novas casas. Naquele dia, em uma espetaculosa operação policial, elas e outros nove moradores foram presos.
Assista ao documentário “Moinho de gente: a expulsão da última favela do centro de São Paulo”
De noite, a população do Moinho via a si mesma nos telejornais. Nas TVs dos botecos, passavam as imagens das vielas cheias de polícia, o lugar taxado de “quartel general do crime”, vizinhos algemados. Na quadra da favela, moradores se reuniam. A sensação era de medo generalizado. “Para forjar qualquer outro de nós, é um, dois. A gente precisa se unir mais que nunca”, disse a padeira da comunidade. “Acho que não vou conseguir dormir nunca mais”, falou outra moradora.
Epicentro do conflito
Neste último ano o Moinho virou epicentro de um conflito político e policial de escala nacional. As cenas dariam um filme de ação. Barricadas de fogo fechando a linha do trem, polícia com helicóptero e snipers de cima da ponte, ida do presidente da República em evento televisionado, prisões com denúncias de tortura, trator demolindo casa com gente dentro.
Acontece que o Moinho, incrustado há 35 anos em uma das regiões mais cobiçadas da capital paulista, virou uma pedra no sapato não só das pretensões eleitorais do governador bolsonarista, que tem no avanço das fronteiras do capital financeiro no centro a sua principal aposta política.
Alê e o Moinho eram um obstáculo para algo ainda maior. Não resistiam apenas a uma remoção; mas a uma nova era de gestão pela força. Ao não se curvarem à coação da CDHU – a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo – nem à repressão policial, tornaram-se alvos de um processo de criminalização.
Da era da gestão à da guerra urbana
Tarcísio, na visão da pesquisadora Isadora Guerreiro, com quem a gente conversou, implementa de forma eficiente e inédita a instrumentalização do estado como fiador militar de interesses empresariais.
Não por coincidência, as investidas da CDHU para as famílias assinarem o “termo de aceite” da sua própria expulsão nunca estiveram desvinculadas da presença policial.
Se antes a gente vivia a “era da gestão”, em que o estado finge que negocia, enrola, assina papel, faz reuniões e por vezes recua; agora, na definição de Guerreiro, estamos na “era da guerra”. O diálogo é atropelado, a liderança é presa, a comunidade é chamada de “bunker do PCC” e o trator entra escoltado pela polícia.
Vimos isso acontecer. Todos sentíamos que a criminalização estava sendo gestada. E que, em uma disputa eleitoral entre Lula e Tarcísio – um dizendo que estava fazendo “reparação” com habitação, o outro que estava desmantelando o crime – as vidas de moradores seriam facilmente rifadas.
Muitas vezes foi dito à Alê que ela corria perigo, que poderiam forjar algo. Seu sobrenome, Moja, a atrela ao seu irmão. “Léo do Moinho” foi preso por tráfico e associação criminosa. Caía como uma luva para o discurso do governo do estado. Rapidamente a imprensa já tratava parentesco como crime.
Quando o Metrópoles publicou uma notícia dizendo que a ida de Lula ao Moinho foi “articulada com ONG ligada ao PCC”, a Associação de Moradores registrou um boletim de ocorrência por calúnia. E exigiu direito de resposta. Mas não deu tempo para que ela fosse publicada.
Cogitou-se tirar Alê do território por segurança. Ela nunca quis. Dizia que não devia nada e que não ia arredar o pé da comunidade que dedicou a vida em defender. De fato, não só nós dois testemunhamos, como vídeos e documentos mostram a coerência da atuação dela ao longo das décadas, sempre sob o mote “água, luz e esgoto”. Esses dias a gente achou um vídeo de 2010 em que ela, aos 26 anos, fala do risco de despejo para a construção de um parque (ó que ironia) e defende a urbanização da favela.
‘Nóis por nóis’
Em uma assembleia que a gente presenciou em 2024, quando a comunidade soube que tinha perdido a tutela antecipada de usucapião, Alê afirmou que a luta não estava perdida. “A minha história eu não vendo”, disse. Não vendeu. E pagou caro por isso.
Não só ela.Yasmim, que trabalhava de gari, agora responde em liberdade mas está proibida pela Justiça de se aproximar da comunidade onde nasceu e cresceu. Também não pode participar de reuniões ou se manifestar politicamente.
Oito meses depois, oito pessoas seguem encarceradas. Nenhuma delas teve, ainda, a audiência marcada.
Em uma entrevista dada 19 meses antes de ser presa, Alê atribuiu a “sobrevivência” do Moinho por mais de três décadas à sua autonomia. “A gente conseguiu uma força muito maior do que se se aliasse a partido, levantasse a bandeira de alguém, fizesse negociações”, sorriu. “A gente faz ‘nóis por nóis’. Cada um faz um pouquinho, o que consegue. E dessa forma, a gente criou um estado de comunidade”, explicou.
Enquanto a extrema direita transformava as prisões em likes, a esquerda institucional optou por um covarde silêncio. As eleições, afinal, estão logo ali.
Antigos aliados institucionais pararam de responder mensagens. Enquanto o medo empurrava as famílias para fora, as lideranças que antes negociavam o freio da violência da remoção tinham sido tiradas do caminho.
Sem a Alê e a Yasmim, o estado passou o trator. Literalmente. As máquinas entraram e transformaram a favela em um cenário de guerra. Ainda assim, outras mulheres tiveram a coragem de botar a cara a tapa, fazer renascer a Associação de Moradores e, junto com apoiadores, criar o Comitê em Defesa da Favela do Moinho – que nós dois integramos.
Alexsandra Aparecida foi uma dessas mulheres. Em fevereiro, ela mandou um áudio contando como estavam as coisas. Meses antes, a PM tinha matado, a tiros, o morador Felipe Petta, dentro do seu barraco.
“Polícia todo dia oprimindo, CDHU. Quando não é a militar, é a GCM. Estão infernizando né? Querem o terreno, querem esvaziar o quanto antes. Aqui, minha filha, está igual à Faixa de Gaza. É escombro para tudo que é lado, entendeu? Não tem luz. À noite as pessoas não tem como enxergar. Se tiver que sair, tem que arriscar sofrer um acidente. E é isso, minha amiga. Mas a gente está aqui né? Tentando nadar para chegar na praia”.
O laboratório de desumanização
A Faixa de Gaza aparece sempre nas conversas entre moradores. Está até no pixo de uma das paredes que, simbolicamente, segue de pé ali. As duas resistências já até tiveram troca direta: em 2013, Alessandra participou de um evento online com a ativista palestina Leila Khaled.
Não estamos, evidentemente, diante de um genocídio étnico. Mas a relação que se faz vai para além de um território reduzido a escombros e sitiado, a mais de um ano, por forças policiais. E tem a ver com outro aspecto que tornou possível que a história tomasse esse rumo. O de que a sociedade simplesmente se importa menos. O Moinho é um laboratório dessa indiferença.
Em entrevista ao Intercept sobre seu novo livro, o filósofo Vladimir Safatle diz que um traço que marca o fascismo é “uma violência interna à sociedade, que a recompõe e regenera, que a faz funcionar a partir de dois afetos políticos centrais, a dessensibilização e a indiferença”.
Para Safatle, “o estado já não gere mais nada”, mas “impõe uma lógica de contragestão, e a condição para essa lógica funcionar é que o corpo social tem que ter sido desagregado”. Faz lembrar as falas do Tarcísio nas suas peças publicitárias, em que admite ter como objetivo “desmobilizar” o Moinho.
Enquanto o estado esgarça os laços feitos a partir do território, as pessoas se esforçam para não deixar que eles escorram pelos dedos. Outro dia, no meio das montanhas de entulho que agora ocupam o lugar das casas, encontramos três antigos moradores. O Palmeirense, o Pirata e o Santista já se mudaram. Mas quando podem, retornam. Sentados em cadeiras resgatadas dos destroços, os três amigos conversavam como se o ambiente ao redor fosse o bairro de meses atrás.
Sem ponto final
A propaganda oficial diz que uma solução habitacional foi dada às famílias. É mentira. Conseguimos provar com dados e documentos, depois de meses de apuração e dois recursos aos pedidos via Lei de Acesso à Informação que não tinham sido respondidos (Leia a reportagem com os dados).
Dezenas de famílias ainda estão no Moinho. E a maioria das que saíram não está em uma moradia definitiva. A história está mudando de cenário, mas está longe do fim.
Em uma carta escrita de dentro do superlotado presídio de Tupi Paulista, a cerca de 700 km de distância de sua família e amigos, Alê agradece Caio pelos anos de registro da história da favela. “Se não fosse assim, não teríamos tanto material do Moinho vivo, pois ele vai estar vivo dentro de cada morador que viveu lá, cada pessoa que esteve lá. E estas memórias, que logo mais vamos compartilhar juntos, vai ser para não deixar morrer a vida que sempre existiu no Moinho e sempre tentaram apagar, esses anos todos”.
O que você agora tem em mãos – em documentário e reportagem especial – é nossa singela contribuição neste sentido. Os moradores da Favela do Moinho contarão a você a sua própria história.
Esperamos que você goste e não fique indiferente ao que acontece ali,
- *Reporagem de Caio Castor e Gabriela Moncau, do site Intercept Brasil
- Foto: Reprodução/Intercept Brasil

