Sertão será a região mais afetada pelo Super El Niño
Estiagem, redução das chuvas e elevação das temperaturas, entre o segundo semestre e o início do próximo ano, estão entre as previsões de modelos climáticos e boletins que apontam a ocorrência do Super El Niño. O termo é aplicado, informalmente, quando as anomalias de temperatura no Pacíf ico Equatorial ultrapassam +2 °C — limiar atingido nos episódios históricos de 1997––1998 e 2015–2016.
Com impactos refletidos na agricultura e na alta dos preços de alimentos e itens essenciais, na Paraíba, o Sertão deverá ser a área mais afetada, seguida do Agreste. No Litoral, o verão terá temperaturas e incidência de raios solares acima da média. Diminuição dos níveis dos rios, e processos de desertificação intensificados também acendem alertas.
Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Ranyére Nóbrega conta que os modelos indicam, para o Nordeste, crescimento da evapotranspiração, atraso da estação chuvosa, alta variabilidade espacial e focos de incêndio no semiárido.
“O Atlântico aquecido atuou como fator atenuante e amenizou a estiagem no início do ano, mas seu sinal começa a diminuir a partir do segundo semestre, ampliando a influência do El Niño”aponta o geógrafo.
A última atualização da agência estadunidense Administração Nacional Oceânica e Atmosférica — em inglês National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa) —, divulgada no último dia 8, indica que o cenário climático global para o segundo semestre de 2026 será dominado pelo El Niño, com mais de 87% de chance de estabelecimento do fenômeno entre junho e julho de 2026, chegando a 96% de probabilidade de persistência no período de dezembro de 2026 a fevereiro de 2027.
Diante do contexto e das repercussões esperadas, esforços como a melhoria da drenagem urbana; o fortalecimento dos sistemas de alerta; a ampliação do monitoramento hidrológico; e um melhor planejamento do uso do território, de acordo com o geógrafo, são medidas muito mais efetivas do que respostas emergenciais tomadas após os eventos. “Para o Nordeste, as prioridades são gestão hídrica, segurança alimentar, saúde pública, prevenção a incêndios e comunicação”, aponta Ranyére Nóbrega.
Modelos climáticos
A Organização Mundial de Meteorologia (OMM) reforça: os modelos climáticos estão fortemente alinhados, e há alta confiança no início do El Niño, seguido de maior intensificação nos meses seguintes. “Isso significa que todos os centros de previsão de El Niño estão enxergando a chegada dele; a diferença está na intensidade. Os El Niños são classificados em fracos, moderados, fortes e muito fortes, e a maneira como o Oceano Pacífico leste está aquecendo está muito acelerada. Para alguns cientistas, como nunca observado”, destaca Nóbrega.
Previsões feitas para os meses de março a julho enfrentam a chamada “barreira de previsibilidade da primavera”, período em que os modelos climáticos apresentam menor precisão para antecipar o comportamento do El Niño, e muitas projeções podem sofrer alterações importantes. “O oceano e a atmosfera interagem de forma não linear, e pequenas variações no estado inicial se amplificam ao longo do tempo”, descreve Ranyére Nóbrega. Por isso, os boletins estão sendo atualizados constantemente: quanto mais próximas do pico — projetado para novembro e dezembro de 2026 e janeiro de 2027 —, mais robustas se tornam as previsões regionais.
No boletim da Noaa, já há um indicativo superior a 70% de que o evento chegue no verão, com intensidade de forte a muito forte. “Mas é necessário acompanhamento constante para aumentar a precisão da probabilidade e verificar se o indicativo aumentará”, pontua o geógrafo. Ao passo que favorece grandes volumes de chuva no Sul do país, o El Niño aumenta o risco de seca no Norte e Nordeste.
Para a Paraíba e Pernambuco, os impactos podem diferir a deca quantidade de umidade vinda do Atlântico no litoral (barlavento), deixando a sub-região ainda mais isolada sob uma massa de ar seco e quente. Como a base econômica é de agricultura familiar, essa atividade e a região podem sofrer impactos significativos. No semiárido (Sertão), pender da sub-região. O Litoral recebe umidade do Atlântico por mecanismos próprios, e será a área menos afetada. Ainda assim, a redução das chuvas no segundo semestre pode comprometer o abastecimento urbano em algumas cidades, degradar estuários e aumentar o risco de incêndios em remanescentes de Mata Atlântica.
Destaca-se uma previsão de verão com temperaturas acima da média e alta incidência de radiação ultravioleta (UV). A zona do Agreste é de vulnerabilidade. O Planalto da Borborema retém a pouas consequências previstas são mais severas. Com menos chuvas e ondas de calor intensas, a evaporação nos açudes será acelerada, comprometendo o abastecimento humano e animal, com período de seca mais prolongado do que a média histórica.
Cuidados preventivos
“Independentemente da intensidade, o episódio previsto do El Niño provocará impactos, e as regiões mais afetadas já foram apontadas, bem como as medidas preventivas, que podem reduzir os danos”, avalia o professor de geografia da UFCG, Ranyére Nóbrega.
Uma das preocupações cruciais diante das condições impostas pelo fenômeno, para Ranyére Nóbrega, a gestão hídrica passa, principalmente, pelo monitoramento de açudes estratégicos como Boqueirão, na Paraíba, e Araripe, em Pernambuco. “Além disso, planos de racionamento preventivo devem ser acionados antes do pico do fenômeno”, afirma.
Outro ponto importante é o preparo para a prevenção de incêndios. “É essencial garantir que governos estaduais e municipais possam, prontamente, combater incêndios em áreas de Caatinga e zonas de transição”, assevera. No contexto da segurança alimentar, o professor destaca o apoio da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) na estocagem, emergencial e prévia, de produtos básicos para enfrentar a alta de preços durante a estiagem, principalmente no Sertão.
Já no eixo saúde pública, esforços devem ser concentrados no monitoramento sanitário dos reservatórios e campanhas sobre qualidade da água. “Além destes esforços preventivos e estratégicos, pensar em comunicação é fundamental, e o foco deve ser o combate à desinformação sobre o Super El Niño, com linguagem acessível e dados confiáveis”, opina Ranyére.
- Reprodução de texto de Carolina Oliveira publicado neste domingo, 21/6, no Jornal A União
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