O excesso de olhares: quando a câmera deixa de registrar e passa a condenar
Em uma sociedade acostumada a transformar imagens em provas e suspeitas em sentenças, quem está atrás da câmera também precisa ser questionado
Depois de anos convivendo com quase nenhuma vigilância, entramos em um mundo onde as pessoas tinham medo de ser culpadas por erros que jamais cometeram. Não estou aqui para defender nada. Apenas me peguei observando algo que não é novo, mas que há muito tempo vem se moldando para uma nova metamorfose.
Desta vez, quero olhar para o excesso de olhares.
Em poucos anos, as lentes e as memórias digitais tomaram conta da vida de praticamente qualquer pessoa. No início dos anos 2000, alguém acusado por algo dificilmente teria como se defender sem testemunhas. Hoje, a tecnologia mudou isso. As câmeras trouxeram um estado de vigilância constante, quase impossível de evitar. A privacidade, pouco a pouco, deixou de ser regra e passou a parecer exceção.
Mas existe algo ainda mais perigoso nessa transformação: a sensação de segurança de quem está atrás da câmera.
O celular nas mãos criou uma espécie de escudo. Quem filma sente que está protegido pelo próprio registro. Sente que tem uma prova. Sente que tem autoridade. Sente que pode apontar a lente para alguém, registrar um fragmento da realidade e, a partir daquele enquadramento, construir uma certeza.
Só que existe uma pessoa do outro lado.
E, muitas vezes, essa pessoa sequer sabe que se tornou uma vítima.
Uma vítima da câmera. Da exposição. Do julgamento. Da narrativa criada por quem apertou o botão.
A câmera, que deveria registrar um fato, passou também a produzir versões dos fatos.
E isso é diferente.
Porque uma imagem pode mostrar alguma coisa sem mostrar tudo. Pode registrar um segundo e esconder os minutos que vieram antes. Pode congelar um gesto e apagar o contexto. Pode revelar um comportamento sem explicar sua causa.
Ainda assim, basta um toque na tela.
O registro é publicado.
A sentença vem depois.
Ou, muitas vezes, antes mesmo de qualquer apuração.
As pessoas compram certezas sem questionar. Compartilham acusações, reproduzem julgamentos e transformam suspeitas em verdades. Não precisam conhecer a vítima. Não precisam ouvir sua versão. Não precisam saber o que aconteceu antes ou depois daquele segundo capturado pela lente.
Basta a imagem.
É uma forma de vigilância particularmente covarde porque é unilateral.
Quem observa não precisa se identificar. Quem grava pode escolher o ângulo. Quem publica pode escolher a legenda. Quem compartilha pode acrescentar sua própria interpretação.
E quem foi filmado?
Quem foi transformado em personagem daquela história?
Muitas vezes, nem sequer sabe.
Estamos criando uma sociedade em que qualquer pessoa pode ser transformada em suspeita por alguém que simplesmente apontou uma câmera em sua direção.
Vigilantes sem critério, cegos e surdos, protegidos pela tela e amparados pela multidão digital, com grandes alto-falantes gritando:
“Culpado!”
O problema não é apenas a existência das câmeras.
É a confiança cega que depositamos nelas.
É acreditar que registrar significa compreender.
É acreditar que filmar significa provar.
É acreditar que estar atrás da câmera nos coloca automaticamente do lado certo da história.
Talvez seja justamente essa sensação de segurança que precise ser questionada.
Porque uma câmera não tem consciência.
Não conhece contexto.
Não reconhece injustiça.
Não sabe quem é vítima e quem é acusado.
A câmera apenas registra.
Quem julga é o ser humano.
E talvez seja exatamente aí que esteja o nosso maior problema.
Se um dia retirarmos as câmeras das mãos das pessoas, talvez descubramos quanto da nossa atual sensação de segurança vinha, na verdade, da possibilidade de apontar uma lente para alguém.
E talvez descubramos também algo ainda mais desconfortável:
quantas pessoas hoje só se sentem autorizadas a acusar porque sabem que estão segurando uma câmera.
Artigo da redação

