Flávio sai, o ódio fica
O senador Flávio Bolsonaro (PL) fugiu. Se fugiu, é porque temeu ser preso. Se temeu ser preso, é porque sabe que cometeu crimes. Como em breve não terá mais mandato de senador para se proteger, o jeito foi deixar o país.
E foi nesse homem, que responde a processos diferentes na Justiça, um fugitivo, que muitos brasileiros votaram para fazê-lo presidente. Incrível!
Primeiro, veio o chilique já esperado: “Foi fraude, foi golpe, foi sacanagem, blablablá…”. Isso para justificar que não reconhecia o resultado da eleição, em razão da extensão do horário que o seu próprio partido, o PL, também havia pedido à Justiça Eleitoral.
Flávio é derrotado, mas deixa uma penca de brasileiros que espalham ódio e intolerância em todo o país. Em João Pessoa, alguns comerciantes não querem eleitores de Lula em seus ambientes. Donos de uma pizzaria foram às redes sociais do estabelecimento para fazer um “comunicado importante”, classificando os esquerdistas de “eleitores de larápios” e explicando que, embora não possa impedir a presença de antibolsonaristas (nem precisam de ser esquerda), “não fazemos nenhuma questão de os receber”. Talvez não tenham imaginado que eleitores de Lula também frequentam pizzarias e restaurantes bem melhores. Entre esses que votaram pela reeleição do presidente estão o governador Lucas Ribeiro; o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Adriano Galdino; o presidente da Câmara dos Deputados, deputado federal Hugo Motta; os senadores Veneziano Vital e Daniella Ribeiro; o senador eleito e ex-governador João Azevêdo, e tantos e tantos outros políticos, empresários, advogados, membros de Ministérios Públicos, médicos etc. Todos personas non gratas na tal pizzaria, claro.
Um ambiente que não aceita eleitores do PT como clientes pagantes, possivelmente também não aceita empregados esquerdistas. Como aceitar pagar a uma equipe antibolsonarista, se recusam o dinheiro de potenciais pagantes? O Ministério Público do Trabalho talvez pudesse investigar se houve assédio eleitoral.
Outro caso de intolerância partiu publicamente da Ice Cream Mix Sorvete. Em postagem no Instagram, a empresa anunciou que deixará de fazer campanhas sociais, indicando que é por conta do resultado da eleição, quando informa que “estamos cansados de ajudar quem prefere viver dos auxílios do governo”.
Em Goiás, um vendedor de espetinhos de Itaguari afirma ter sido impedido de comprar carne, ontem, num supermercado local, por ser petista.
Empresários e integrantes do grupo de WhatsApp “Movimento direita LRV”, do município de Lucas do Rio Verde (a 354 km de Cuiabá), iniciaram uma mobilização para criar uma lista de boicote contra estabelecimentos cujos proprietários votaram no petista.
Como esses, há outros, cujo pavor perante a democracia é tão intenso que não percebem o potencial prejuízo de rejeitar clientes por razões ideológicas. Inteligência emocional zero. Parece que todos esses possuem apenas uma inteligência artificial (Não estou falando da IA, mas de um defeito congênito de raciocínio).
Antes mesmo da eleição, perguntaram-se se eu ainda comprava produtos Ipê, empresa bolsonarista. Eu respondi que votaria em Lula, sim, mas não deixaria de comprar os produtos, simplesmente porque ainda me resta uma boa massa cinzenta e, também, porque minha inclinação pelo ódio é muitíssimo rasa, graças a Deus.
Só não faço beber o detergente, claro.
Por Gisa Veiga
Artigo publicado nesta quarta-feira no jornal A União

