terça-feira, fevereiro 17, 2026
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Jesse Jackson, líder dos direitos civis nos EUA, morre aos 84 anos; conheça sua trajetória

O pastor Jesse Jackson, um carismático líder dos direitos civis nos Estados Unidos criado no sul do país que concorreu duas vezes à indicação presidencial do Partido Democrata, morreu aos 84 anos, afirmou sua família em um comunicado nesta terça-feira (17).

“Nosso pai foi um líder servidor —não apenas para nossa família, mas para os oprimidos, os sem voz e os marginalizados em todo o mundo”, disse a família Jackson. Colaborador próximo de Martin Luther King, o ativista foi diagnosticado com a doença de Parkinson em 2017.

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Jesse Jackson participa de uma manifestação em frente ao Capitólio dos EUA – Evelyn Hockstein/Reprodução/Reuters

Sua morte ocorre no momento em que o governo de Donald Trump mira locais de memória que considerada antiamericana, levando ao desmantelamento de exposições sobre escravidão e a outras medidas que, segundo ativistas, podem reverter décadas de progresso social.

Trump usou sua plataforma, a Truth Social, para elencar demandas de Jackson que teriam sido atendidas na sua Presidência e dizer que o ativista era “um homem bom, com muita personalidade, garra e sagacidade”. “Eu o conhecia bem, muito antes de me tornar presidente”, afirmou. “Ele amava muito sua família, e a eles envio minhas mais profundas condolências.”

Ao concorrer à indicação presidencial pelo Partido Democrata em 1984 e 1988, fez campanhas surpreendentemente fortes, mas não conseguiu se tornar o primeiro candidato negro à Casa Branca por um grande partido.

Em 1984, Jackson conquistou 3,3 milhões de votos nas prévias democratas, cerca de 18% do total, e terminou em terceiro lugar, atrás do indicado Walter Mondale e de Gary Hart, na disputa pelo direito de enfrentar o republicano Ronald Reagan, então presidente. Sua candidatura perdeu força depois que veio a público que havia chamado, em conversas privadas, os judeus de “hymies”, um termo pejorativo, e Nova York de “Hymietown”.

Já em 1988, Jackson era o candidato mais refinado e alinhado ao mainstream, ficando em segundo lugar na disputa democrata para enfrentar o republicano George W. Bush. Ele deu trabalho ao eventual indicado democrata Michael Dukakis, vencendo 11 primárias estaduais.

“A América não é um cobertor tecido com um único fio, uma única cor, um único tecido”, disse, em uma convenção em Atlanta naquele ano. “Onde quer que vocês estejam esta noite, vocês podem conseguir. Mantenham a cabeça erguida, o peito estufado. Vocês podem conseguir. Às vezes escurece, mas a manhã chega. Não desistam. O sofrimento forja o caráter, o caráter forja a fé. No final, a fé não decepciona.”

No fim das contas, ele nunca ocupou um cargo eletivo.

Jackson anunciou em 2017, aos 76 anos, que havia sido diagnosticado com doença de Parkinson, um distúrbio de movimento caracterizado por tremores, rigidez e problemas de equilíbrio e coordenação, após apresentar sintomas por três anos.

Nascido em 8 de outubro de 1941, em Greenville, na Carolina do Sul, o ativista era filho de uma estudante do ensino médio de 16 anos e seu pai era um homem casado de 33 anos que morava na casa ao lado. Mais tarde, a mãe dele se casou com outro homem, que adotou Jackson. Ele cresceu durante a era de leis e práticas racistas frequentemente aplicadas de forma brutal nos EUA.

Jackson conseguiu uma bolsa de estudos para jogar futebol americano na Universidade de Illinois, mas se transferiu para uma faculdade historicamente negra porque disse ter sofrido discriminação. Ele começou seu ativismo pelos direitos civis enquanto era estudante na North Carolina Agricultural & Technical College e foi preso quando tentou entrar em uma biblioteca pública “somente para brancos” na Carolina do Sul.

Jackson tornou-se um braço direito do líder dos direitos civis Martin Luther King Jr. e às vezes viajava com ele. No dia em que King foi assassinado por um homem branco chamado James Earl Ray na varanda do Lorraine Motel, em Memphis, Jackson estava um andar abaixo. Ele irritou aliados de King quando disse a jornalistas que havia segurado o amigo em seus braços e sido a última pessoa com quem King falou, um relato que eles contestaram.

King, que liderava a Conferência de Liderança Cristã do Sul, havia colocado Jackson em um cargo de liderança para ajudar a criar oportunidades econômicas nas comunidades negras.

Ele conheceu a esposa, Jacqueline Brown, durante a faculdade. Eles se casaram em 1962 e tiveram cinco filhos. Seu filho Jesse Jackson Jr. foi eleito para a Câmara dos Representantes dos EUA, mas renunciou e cumpriu pena de prisão por fraude. Jackson teve uma filha fora do casamento em 1999, com uma mulher que trabalhava em seus grupos de direitos civis, o que se tornou um escândalo.

O ativista era conhecido por sua diplomacia. Depois de conseguir em 1984 a libertação pela Síria do aviador naval americano Robert Goodman Jr., o presidente Ronald Reagan o convidou à Casa Branca e expressou gratidão pela “missão de misericórdia”.

Além disso, Jackson se reuniu em 1990 com o líder iraquiano Saddam Hussein para conseguir a libertação de centenas de americanos e outras pessoas após a invasão do Kuwait pelo Iraque. Ele também conseguiu em 1984 a libertação de dezenas de prisioneiros de prisões cubanas e a libertação de três aviadores americanos detidos na Sérvia em 1999.

De 1992 a 2000, apresentou um programa semanal na CNN e pressionou corporações pelo empoderamento econômico negro. Em 2000, recebeu a mais alta honraria civil dos Estados Unidos, a Medalha Presidencial da Liberdade, concedida por Clinton.

Continuou seu ativismo, condenando o assassinato pela polícia de George Floyd e de outros americanos negros em 2020, em meio a um movimento global por justiça racial.

 

  • Folha/UOL
  • Foto: Reprodução/Paul Natkin/Getty Images

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