Politica

Governo Lula já contabiliza ganho político mesmo que Congresso não aprove fim da 6×1

A cúpula do governo avalia que o presidente Lula (PT) terá uma vitória política com a discussão sobre o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso mesmo que o projeto não seja aprovado pelo Congresso.

A análise dos governistas é que a proposta deverá ser aprovada na Câmara agora que o petista chegou a um acordo com o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), e que haverá desgaste político para quem se contrapuser ao projeto. Há dúvida em relação futuro do projeto no Senado, onde empresários e oposição tentam brecar o avanço do texto.

Lula planeja ter o fim da escala 6×1 como marca de seu governo e fazer do tema um dos principais de sua campanha de reeleição. O presidente e seu entorno querem a proposta aprovada o mais rápido possível. A avaliação na cúpula do governo é que há uma maioria na opinião pública em favor da pauta, e que essa oportunidade de implementar uma ideia cara à esquerda política não pode ser perdida.

Aliados de Lula avaliam, porém, que mesmo que o petista seja derrotado em uma votação sobre o assunto no Congresso, o debate sobre o fim da escala 6×1 já deu uma vitória política ao presidente da República.

O raciocínio é que o petista conseguiu incorporar ao seu discurso uma pauta de esquerda que tem amplo apoio social. Como mostrou pesquisa Datafolha divulgada em março, 71% do eleitorado apoia a redução da jornada de trabalho.

Caso seja derrotado nas votações do Congresso sobre o tema, Lula poderá dizer na campanha eleitoral que defende os trabalhadores e seus adversários, não. Seria uma forma de o petista reforçar o discurso antissistema que está elaborando para a disputa eleitoral.

Além disso, como há ampla maioria na população a favor da redução da jornada, congressistas que se colocarem contra o projeto tendem a sofrer desgaste junto à opinião pública. Essa situação deverá inibir votos contrários nas discussões, na avaliação dos articuladores políticos do governo.

A forma como o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), lidará com o texto, é imprevisível. A relação do chefe do Legislativo com o Planalto está ruim desde a rejeição de Jorge Messias ao STF (Supremo Tribunal Federal), em abril.

Até o momento, Alcolumbre tem mantido segredo sobre como lidará com o fim da escala 6×1 quando ela chegar ao Senado. Espera-se que a Câmara aprove o texto nesta quinta-feira (28). Como mostrou a Folha, empresários procuraram o chefe do Legislativo em busca de alterações, principalmente sobre o período de transição para a redução de jornada.

O chefe do governo e diversos de seus aliados demonstram, nos bastidores, incômodo com o fato de os programas sociais do Executivo não tenham sido suficientes para impulsionar a popularidade de Lula. A avaliação é que o eleitorado já enxerga benefícios como o Bolsa Família como garantidos independentemente do governo petista.

O fim da escala 6×1 se encaixa em uma ideia alimentada pelo presidente, a de que é necessário encampar propostas que vão além dos programas sociais, apresentando ao eleitorado algo diferente do que já é esperado de gestões petistas.

Os governistas preveem desgaste especialmente em relação a senadores, que precisam de votos de públicos amplos em seus estados para se reeleger. Dois terços das vagas no Senado estarão em disputa em outubro.

Nesta segunda-feira (25), Lula se reuniu com Hugo Motta para discutir o andamento da PEC (proposta de emenda à Constituição) sobre o tema. Depois da conversa, ele anunciou um acordo a jornalistas ao lado dos ministros José Guimarães (Relações Institucionais) e Luiz Marinho (Trabalho), ambos do PT.

A proposta prevê o fim da jornada de seis dias de trabalho por um de descanso, estabelecendo dois dias de folga por semana, em 60 dias depois da promulgação da PEC. Nesse prazo o limite da jornada semanal também passará de 44 horas para 42 horas.

A proposta também deverá determinar nova redução da jornada semanal, de 42 horas para 40 horas, 12 meses depois. A vontade do governo era que o projeto entrasse em vigor com uma transição que durasse no máximo poucos meses, mas aceitou uma entrada em vigor gradual do projeto para facilitar a tramitação.

 

  • Folha/UOL
  • Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

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