terça-feira, março 3, 2026
ColunaGisa Veiga

Os pecados da imprensa

A pressão que jornalistas de portais sofrem para publicar, em primeira mão, uma boa notícia provoca, em muitas ocasiões, uma informação sem qualidade. Ou, até mesmo, errada. E, se esse erro provoca danos a uma pessoa ou a um grupo específico, a situação fica ainda mais complicada. Nenhum veículo está isento de erros. Quando eventuais, fazem parte da lida diária. E a responsabilidade de cada um deles pode ser medida na maneira como esse erro é tratado logo a seguir.

Mas, quando acontece por apuração mal feita, toda a imprensa é castigada, até mesmo os jornais e portais que primam pela qualidade da informação. Ninguém da área esquece o icônico Caso Escola Base, quando várias emissoras de TV e jornais anunciaram, em 1994, que as crianças que lá estudavam eram vítimas de abuso sexual por parte do casal dono da instituição. Eles eram inocentes. Anos depois, órgãos de imprensa foram condenados pela Justiça. E, quando a notícia envolve mulheres, as consequências são sempre mais dolorosas, e as interpretações, mais maliciosas.

A Defensoria Pública de Goiás entrou com uma ação civil pública contra a Globo, a CNN Brasil, a Record e o SBT por supostamente incitar um linchamento virtual contra Sarah Araújo, a mãe das duas crianças mortas em Itumbira, interior goiano, pelo ex-marido, que suicidou-se em seguida. A instituição quer que as emissoras paguem uma indenização de R$ 1 milhão em danos morais coletivos a Sarah. Ela, uma vítima, teria virado a vilã da história, quando as provas gritam contra o ex-marido.

Outro caso recente foi o da apresentadora Luciana Gimenez, que teve seu nome ligado ao Caso Epstein. Num artigo com a assinatura da apresentadora, ela se queixa: “Não é a primeira vez que vejo uma fake news circular, mas é a primeira vez que sinto de forma tão concreta o tamanho do estrago que ela pode provocar quando atinge não só a imagem pública, mas a vida privada, a família e principalmente os filhos”. É que seu nome apareceu em um conjunto de registros financeiros apenas por ter conta na mesma instituição bancária em que o Jeffrey Epstein tem a sua. E, assim, conclusões apressadas viraram manchetes e julgamentos.

Interpretar dados de pesquisas de forma apressada também mancha a história da imprensa. A Folha de S.Paulo publicou matéria segundo a qual os brasileiros “trabalham menos que a média mundial” e que “têm preferência pelo lazer” — seriam vagabundos? O jornal, ao fazer sua leitura de uma pesquisa da Universidade da Califórnia, compara Brasil a países como Alemanha e Coreia do Sul, “com infraestrutura robusta e transporte eficiente”. Ou Emirados Árabes Unidos e Butão, “com regimes francamente escravistas”, segundo anota Kiko Nogueira, no site DCM, ao analisar as manobras daquele jornal para “interpretar” dados. O Brasil aparece na 38a posição entre 160 países, em horas trabalhadas. “Isso significa que 122 países trabalham menos do que nós. Ainda assim, o jornal de Luiz Frias resolveu vender a ideia de que o brasileiro deveria ralar mais. É manipulação estatística com verniz acadêmico”, diz ele.

A imprensa vem sendo atacada mesmo quando diz a verdade dos fatos. Quando distorce esses fatos, a pancada é justíssima. Dá-lhe, MP! Dá-lhe, Justiça!

 

Por Gisa Veiga

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