Para que serve um influenciador?
Gisa Veiga
Toda criança gosta de mimetizar adultos. Qual a menina que nunca pegou os sapatos de salto da mãe e saiu, desajeitada, desfilando pela casa? Qual o menino que não imita gestos e falas do pai? Há imitações naturais e até saudáveis. Não é o caso da criança que quer ser uma influenciadora “de sucesso”.
Daí porque considerei muito positiva a decisão recente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de aprovar proposta que regulamenta a concessão de alvarás para “influenciadores mirins” atuarem em plataformas digitais. Agora, há exigências bem definidas para que essas licenças sejam liberadas.
Nas plataformas, há muitos “influenciadores” tóxicos. No mínimo, no mínimo, vários do tipo “sem noção”. Para que servem esses influenciadores?
Ontem vi um vídeo de uma garota — não sei de onde ela é — sendo criticado por um conhecido nome no Instagram que, ao observar certas postagens, não fala absolutamente nada, apenas “comenta”, com expressões no olhar, a sua desaprovação. Geralmente, ele (@rodrigocondessa) refere-se a comentários absurdos. A tal garota havia marcado um “date” (encontro), como ela fala, com algum homem. Ele havia chegado ao edifício onde ela mora e pediu para a garota descer. Antes, ela conta que foi à janela ver em qual carro ele estava. Era um Polo.
— Esses homens perderam a noção? Como é que um homem quer sair com uma garota bonita dirigindo um Polo? — revoltou-se a beldade, como se fora duramente atingida no seu caráter.
Há muitos vídeos tão ruins e até piores do que a linda e loira garota do “date” frustrado. Há os homens da comunidade virtual “red pill”, que fazem a defesa da dominação masculina e de hierarquias de gênero — a mulher sempre submissa a todo e qualquer capricho desses tipos bizarros. Têm várias contas no Instagram, são perigosos influenciadores, inclusive de meninos, que já começam a adotar certos termos entre coleguinhas nas escolas.
Volto a perguntar: Para que servem influenciadores desse tipo?
Há os que se dizem cristãos e incentivam a violência, há os que defendem a família e apresentam pensamentos violentos, há os que mostram uma performance de atleta e usam anabolizantes, há os que não entendem nada de saúde e sugerem remédios e vitaminas como verdadeiras autoridades… há todo tipo de influenciador com ideias insensatas ou até violentas que nem sempre corresponde ao perfil dourado que apresenta. Ou que corresponde, mesmo, ao perfil, porque não tem vergonha de ser o que é, ainda que a mãe desses tipos, se sensível for, morra de vergonha por eles.
Ora, até adultos insensatos são influenciados por esses perfis medonhos, que dirá uma criança, que ainda não sabe distinguir, nitidamente, o que é saudável e o que é nocivo?
Não se trata de tolher a criatividade de uma criança. Trata-se de chamar a responsabilidade dos pais para com as atividades dos filhos menores na internet, especialmente se esses pequeninos perseguem o sucesso, a popularidade entre os colegas, e não apenas uma diversão.
A nova resolução do CNJ estabelece critérios para autorizar a atuação de influenciadores mirins, determinando que pedidos de liberação judicial apresentem informações detalhadas sobre a atividade, mesmo quando não houver pagamento direto pelo conteúdo publicado. Segundo a imprensa já largamente divulgou, a regulamentação envolve vídeos, transmissões ao vivo e outros formatos digitais, a fim de garantir que a exposição nas plataformas não prejudique o desenvolvimento físico, emocional, social e educacional de crianças e adolescentes.
O CNJ fez sua parte. Pais, façam a sua.

