As críticas de Laura Cardoso aos rumos das novelas: “Você não pode me cortar para fazer um close da bonitinha”
O Jampa News reproduz matéria da BBC News Brasil, postada no site da Folha de S. Paulo, sobre a atriz Laura Cardoso, morta na noite de segunda-feira, aos 98 anos, um dos maiores nomes da dramaturgia brasileira.
Com oito décadas de carreira e mais de 60 novelas encenadas, Laura Cardoso será lembrada por papéis como Isaura, a mãe das gêmeas Ruth e Raquel em “Mulheres de Areia” (1993); e a médium Guiomar, em sua inesquecível interpretação em “A Viagem” (1994).
Na longa trajetória, Laura Cardoso, conhecida por seu forte senso crítico, sentiu as mudanças do tempo. Mais velha, criticou os impactos da tecnologia e a priorização de rostos bonitos nas novelas.
Recusou-se a submeter a tratamentos estéticos invasivos para parecer mais jovem e, com isso, ampliar as possibilidades de trabalho.
“Essa é a minha cara, feia ou bonita, é minha. Tô nem aí”, declarou ao jornal O Globo em abril de 2024, a meses de completar 97 anos.
Morta por causas naturais, Laura dividia a rotina entre o apartamento no bairro de Perdizes, na capital paulista, e o sítio em Itu, interior de São Paulo.
Apesar de afastada da televisão desde 2019, ano em que fez uma participação na novela “A Dona do Pedaço”, da TV Globo, a atriz se dizia pronta para voltar à ativa.
“Não sou muito de férias nem de aposentadoria. Acho que, se você parar, morre alguma coisa por dentro. Trabalho é vida, faz a cabeça e o corpo funcionarem, o coração pulsar forte”, disse ela ao Globo em 2017.
Para se manter atualizada, e com a cabeça trabalhando, Laura manteve o hábito de ler todos os dias.
“Ator tem que saber ler. E tem muitos que não sabem”, disse à Folha.
Foi a literatura, aliás, que a despertou para as artes dramáticas.
Os primeiros passos
Desde muito cedo, Laura foi estimulada a ler compulsivamente pelas professoras do colégio de freiras onde estudou, em São Paulo, e pelo pai, um comerciante apaixonado por literatura, teatro e cinema.
Ainda criança, tomou a decisão, junto com uma amiga, de transformar um romance numa peça de teatro, improvisada ali mesmo, nas ruas do bairro da Bela Vista.
“Toda noite a gente vestia a roupa, botava o chapéu, o anel, o brinco da mãe da menina, sentava na calçada e esperava o bonde. Então, a gente brincava, subia no bonde e descia correndo. Esse era o nosso teatrinho de toda noite”, lembrou ela ao site Memória Globo.
Aos 14 anos, decidiu entrar para o rádio. A mãe foi contra.
“Quem fazia teatro era puta. Então, eu era puta. Sou putíssima até hoje, porque eu defendo a profissão”, disse ela ao Estado de S. Paulo.
Foi o pai quem bancou a decisão de Laura, acompanhando a adolescente para um teste na Rádio Cosmos. Aprovada imediatamente, foi aconselhada a adotar o nome artístico Laura Cardoso, em vez do nome de batismo, Laurinda de Jesus Cardoso
A jovem atriz logo chamou a atenção dos diretores pela versatilidade em cena, alcançada com muita disciplina e treinamento —uma marca de seu trabalho, que permitiu que ela transitasse por todos os formatos da dramaturgia com a mesma desenvoltura.
“Eu quero ganhar. Pode ser vaidade, mas não fico feliz se isso não acontecer. Vou para a arena para sair vitoriosa, ser a melhor, senão não estou satisfeita”, disse à revista Caras em 2013.
O diretor Antônio Abujamra, que dirigiu Laura em peças marcantes, como “As Criadas” (1968) e “Volpone” (1977), destacou as grandes qualidades da atriz.
“Ela é capaz a uma contínua adaptação a situações sempre novas, o que a faz sobreviver num clássico como Ben Jonson [dramaturgo inglês do século 16] ou a infinidades de textos na televisão que a obriga ter uma competência técnica”.
- Matéria assinada por Tom Cardoso
- Foto: Matheus Malafaia/Globo

