quinta-feira, fevereiro 26, 2026
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“Não basta ter fuzil, é preciso postar”: ostentação do crime nas redes sociais atrai jovens para o tráfico

Menos de uma semana após a megaoperação policial no Rio de Janeiro, que deixou mais de 120 mortos, a Polícia Civil divulgou um relatório sobre os alvos da ação. O documento chamou atenção por incluir uma coluna intitulada “foto redes sociais”, com prints de publicações no Instagram e Facebook — usados como supostas evidências de envolvimento dos mortos com o tráfico.

Segundo a apuração da BBC News Brasil, entre as contas analisadas estavam perfis de adolescentes, como o de um jovem de 14 anos morto na operação, que mantinha postagens com o que pareciam ser fuzis e drogas. As imagens continuavam ativas até o fechamento da reportagem.

A matéria mostra como a ostentação digital do crime — marcada por fotos de armas, dinheiro e símbolos de poder — tornou-se um instrumento de status e pertencimento entre jovens das comunidades, impulsionada pelo engajamento nas redes.

“Não basta o sujeito ter o fuzil; ele quer postar o fuzil, ostentar o carro, exibir o crime que cometeu”, explica Rafael Alcadipani, professor da FGV e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

A promotora de Justiça Gabriela Lusquiños, do Rio de Janeiro, destaca que adolescentes são especialmente vulneráveis ao apelo visual das redes. “Eles querem ser vistos, querem ter visibilidade. A estética da ostentação ligada ao tráfico ganhou força com a internet”, diz.

Já a juíza Vanessa Cavalieri, titular da Vara da Infância e Juventude do RJ, critica a falta de controle das big techs:

“As redes sociais se tornaram território livre para o crime. No mundo ideal, quando um adolescente posta uma foto com um fuzil, isso imediatamente seria comunicado às autoridades.”

A reportagem também ouviu o pai de um dos adolescentes mortos, que relatou que o filho era “seduzido por essa onda de ostentação nas redes sociais” e “queria subir no conceito”, buscando poder e status.

As plataformas se manifestaram à BBC: o TikTok informou que analisa os casos e remove conteúdos que violem suas diretrizes; a Meta (controladora do Instagram e Facebook) declarou que “não permite o uso de seus serviços para promover atividades criminosas” e aprimora suas tecnologias de detecção.

Estudos internacionais citados pela reportagem indicam que frear o recrutamento de jovens é essencial para reduzir o poder das facções. Uma pesquisa publicada na revista Science em 2023 aponta que cartéis e organizações criminosas só sobrevivem porque recrutam constantemente — até 370 pessoas por semana, segundo os autores.

Com informações de Giulia Granchi / BBC News Brasil

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