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Morre o autor Benedito Ruy Barbosa, aos 95 anos

O autor Benedito Ruy Barbosa morreu nesta terça-feira, aos 95 anos, devido a complicações de insuficiência renal crônica. Ele estava internado no Hospital do Coração, o HCor, em São Paulo. O corpo do dramaturgo será velado nesta terça, entre 15h e 21h, no Funeral Home, centro de São Paulo, com abertura para o público entre 15h e 16h.

A vida de Benedito Ruy Barbosa passou na televisão. Foi exibida em capítulos de “Cabocla”, “Os Imigrantes”, “Paraíso”, “Pantanal”, “Renascer”, “O Rei do Gado”, “Terra Nostra” e de outras das mais de 20 novelas que escreveu inspirado por suas vivências.

Como seus protagonistas, Ruy Barbosa foi um homem do campo, e sua vida, uma saga de lutas e sucessos. Talvez por isso, costumava falar da história de seus personagens com a voz embargada, olhos marejados, muitas vezes sem segurar as lágrimas. Não foram poucas as vezes em que familiares se depararam com ele chorando diante de uma cena que acabara de escrever. Um passional assumido.

O autor nasceu em 17 de abril de 1931 em Gália, no interior paulista, cidade recém-criada à época, com algumas dezenas de ruas e pouco mais de 2.000 habitantes. Mudou-se pequeno com a família para a vizinha Vera Cruz, onde o pai tinha livraria, tipografia e jornal.

Brincava com filhos de imigrantes que trabalhavam na produção de café, muito presente na região. À noite, sob um lampião, inventava histórias para a turma. Em férias no sítio de um tio, aprendeu a tocar berrante, andar a cavalo, tirar leite de vaca e a tocar a boiada.

Mais velho de cinco irmãos, começou a trabalhar aos 12 anos para sustentar a família, agora sem tipografia, livraria e jornal, vendidos pela mãe, que não conseguia administrá-los. Foi caixeiro, escrevente de cartório e vendeu jornal, até se tornar auxiliar de guarda-livros, uma espécie de contador, na Comercial Antônio Perez, de exportação de café.

O salário não era suficiente e, aos 16 anos, meteu-se em um terno surrado e embarcou rumo à estação da Luz, em São Paulo. Sem dinheiro, lembrou-se de um primo que trabalhava em um clube à beira do rio Tietê. Foi para lá, onde passou a dormir em um cubículo, com suas roupas penduradas em pregos na parede. Entre uma batalha e outra para conseguir dinheiro, pulava da ponte para mergulhar naquele Tietê ainda não poluído.

Empregou-se na sede paulistana da mesma firma em que trabalhara em Vera Cruz. Em 1952, foi transferido para Marialva, norte do Paraná. Lá, além de vender café, fez programa de rádio transmitido em alto-falantes e escreveu para o jornal local.

O primeiro passo para a futura carreira foi dado nessa época. Após presenciar uma das maiores geadas da história do país, escreveu o romance “Fogo Frio”, que em 1959 seria adaptado para peça do Teatro Arena, com direção de Augusto Boal.

Com o sucesso de “Fogo Frio”, foi contratado por uma agência de publicidade como editor de roteiros da Colgate-Palmolive, que produzia novelas para as emissoras. Trabalhou, então, com Glória Magadan, cubana adepta de tramas estrangeiras, que queria distância da realidade brasileira. Com ela, embora tenha aprendido alguns truques folhetinescos, Ruy Barbosa teve a grande lição sobre o que não fazer. Afinal, para ele, o Brasil tinha que estar na telenovela.

Depois de uma primeira fase na Tupi, nos anos 1960, estreou na Globo com “Meu Pedacinho de Chão”, em 1971. Logo se tornaria o grande autor das 18h, com sucessos como “Cabocla” (1979), “Paraíso” (1982) e “Sinha Moça” (1986). Na década de 1970, escreveu também 12 histórias (240 capítulos ao todo) para a série infantil “Sítio do Picapau Amarelo”, baseado na obra de Monteiro Lobato.

Mas tinha o projeto de “Os Imigrantes” para o horário nobre, que a Globo não quis. Foi para a Band, onde, em 1981, fez a novela, que recebeu vários prêmios. Voltou para a Globo, de onde sairia novamente após quase dez anos para mudar a história da teledramaturgia com “Pantanal”, exibida em 1990 na Manchete.

Em suas tramas das oito, de forte impacto na audiência, deixou claros seus posicionamentos políticos, especialmente na defesa dos sem-terra, em “O Rei do Gado”, de 1996.

Em entrevista ao Roda Viva, à época, contou que havia sido cobrado por parlamentares pela morte do senador Caxias, da novela, em um conflito, sem que o culpado fosse apontado e punido. “Eu respondi: ‘Cadê os responsáveis pelos massacres de Corumbiara [RO], de Eldorado dos Carajás [PA]? Se vocês me apresentarem os culpados, eu mostro quem matou [o senador]”.

Politicamente, foi muito próximo ao PT, mas depois se disse desiludido com as lutas internas do partido. Antes, na juventude e, havia se engajado com o comunismo, trabalhado com o politizado Teatro Arena e criado o famoso jingle “O sol nasceu para todos e também para você”, do emedebista Orestes Quércia.

Diante dos muitos sucessos e poucos percalços no Ibope, a estafa se tornou uma espécie de coautora. Em “Pantanal” (1990), fumava muito, dormia pouco e foi internado com pneumonia. “Renascer” (1993) ele terminou de escrever no hospital, com úlcera. Em “O Rei do Gado” (1996), internou-se em um spa. Também enfrentou problemas de saúde quando escrevia “Esperança” (2002).

Mesmo assim, resistia a ter colaboradores. Em “Terra Nostra” (1999), por exemplo, lesionou o braço ao jogar bola com o neto Marcos, que ele chamava de Marquinhos, e não quis ajuda de outro profissional. Ditava os capítulos para um “assistente” que ele mesmo arrumou: o próprio Marquinhos.

“Não gosto que mexam no meu texto. A carpintaria do capítulo e da história inteira é como um castelo de cartas: se tirar um, caem todas”.

Remakes de suas tramas acabariam ficando nas mãos de familiares, em geral sob sua supervisão. As filhas Edmara e Edilene, trabalharam, por exemplo, nas novas versões de “Cabocla” (2004), “Sinhá Moça” (2006), “Paraíso” (2009) e “Meu Pedacinho de Chão” (2014). O neto Bruno Luperi assinou os remakes de “Pantanal” (2022) e “Renascer” (2024) –os dois já haviam trabalhado juntos em “Velho Chico” (2016), última novela de que Ruy Barbosa foi autor, aos 85 anos.

“Cada novela que escrevi foi um ano da vida que perdi e sacrifiquei minha família. Se fosse começar de novo, ficaria na publicidade ou no jornalismo””, disse, certa vez. Mas ele escolheu as novelas. Azar da publicidade e do jornalismo.

Em uma entrevista à atriz Vida Alves, em 1999, ao tentar definir a si próprio, ele se lembrou de uma frase que o neto Marcos havia escrito em uma prova que perguntava “O que você quer deixar para os filhos quando morrer?”. Em lágrimas, o autor repetiu: “Quando eu morrer, eu quero deixar para os meus filhos as minhas malas velhas, o meu jeito de andar e as plantas que eu plantei”.

 

  • Transcrito da Folha/UOL
  • Foto: João Miguel Jr./Globo/Reprodução

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