Empresa que intermediou recurso a produtora de Dark Horse funciona em loja de noivas
Uma das empresas apontadas pela Polícia Federal como elo na suposta triangulação de recursos públicos que chegaram à produtora Go Up Entertainment, do filme “Dark Horse“, é uma consultoria registrada em endereço do bairro Vila Hulda, em Guarulhos, na Grande São Paulo, onde funciona na verdade uma loja de vestidos de noivas.
Nos cadastros da Receita Federal e da Junta Comercial de São Paulo, o Instituto Super Poder Educacional, empresa registrada para exercer atividades como treinamento profissional, edição de livros e comércio atacadista de material de escritório, existe desde 2023 em uma sala comercial da avenida Doutor Timóteo Penteado, no centro do bairro.
No local, contudo, o que há é uma loja de vestidos noivas e roupas para festas, que funciona há pelo menos três anos e meio no endereço, segundo um atendente disse à Folha. Ele afirmou que o estabelecimento não tem nenhuma ligação com a empresa alvo das investigações.
Segundo a decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino, que autorizou a operação da PF realizada na manhã de quinta-feira (10) para apurar repasses para o filme, a investigação mira um esquema que teria recebido tanto dinheiro público federal, viabilizado por meio de emendas parlamentares do deputado federal Mario Frias (PL-SP), quanto municipal, da Prefeitura de São Paulo.
Os repasses de ambas as origens foram para a execução de contratos com a organização ICB (Instituto Conhecer Brasil), que pertence à empresária Karina Ferreira Gama, dona da produtora Go Up Entertainment.
No caso das emendas, Frias destinou R$ 1 milhão a atividades do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação de “letramento digital e empreendedorismo para capacitar adultos e adolescentes”. No caso da prefeitura, o ICB recebeu R$ 108 milhões para oferecer pontos de wi-fi em bairros da periferia.
No convênio federal, a investigação apontou que o ICB subcontratou duas empresas: a Dinâmica Editora e Distribuidora, cuja sede fica em Rio Claro (a 363 km de São Paulo), e a Super Poder Educacional, registrada no endereço da loja de noivas. As duas receberam R$ 700 mil ao todo entre fevereiro e março do ano passado.
A Dinâmica, ainda segundo a investigação, pertence a Dayvid Moreira Medeiros, empresário que responde a processo sob suspeita de fraude em licitação na Paraíba. Já a Super Poder Educacional tem como sócia a empresária Pamella Cristina Dias. A polícia afirma que os dois trabalham juntos em outro negócio: Dias é coordenadora editorial da empresa HD Cultural, que tem Medeiros como sócio.
Para a polícia, segundo a decisão publicada pelo STF, os recursos que as empresas de Dias e Medeiros receberam foram transferidos à Go Up por meio de outra companhia, a NTT Brasil, que pertence a um irmão de Dias, Heric Fabiano Dias.
Entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, a NTT Brasil transferiu R$ 750 mil para a Go Up. A polícia apura se o recurso é o mesmo recebido entre fevereiro e março. Os repasses à produtora ocorreram enquanto o “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro (PL), era filmado, em São Paulo.
A reportagem tentou contato por telefone com Dias e Moreira, mas nenhum deles atendeu as ligações.
Ainda segundo a decisão de Dino, no mesmo período, o próprio Frias transferiu R$ 645 mil para a conta da produtora, “colocando em questão o lastro financeiro para dar suporte às transferências feitas para a pessoa jurídica de Karina Gama no curto espaço de menos de 60 dias”, segundo a investigação. A polícia aponta incompatibilidade patrimonial com a renda do deputado, de R$ 44 mil.
Karina negou irregularidades à coluna Mônica Bergamo, e Frias chamou a ação da PF de “cortina de fumaça”. Procurados pela reportagem, não responderam.
- Folha/UOL
- Foto: Cena de Dar Horse/Reprodução

