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Cineasta paraibano Bertrand Lira destaca força do cinema nordestino e estreia filme em Santiago

Natural de Cajazeiras, diretor participa de mostra de cinema brasileiro na Galícia com o longa ‘Trapiá’, que retrata tradições, transformações e personagens do Sertão paraibano

O cineasta paraibano Bertrand Lira, natural de Cajazeiras, participa nesta semana da III Mostra de Cinema Brasileiro “Bonito pra chover”, realizada em Santiago de Compostela, na Galícia, Espanha. O evento terá a estreia absoluta de “Trapiá”, filme em que o diretor volta o olhar para o cotidiano de uma comunidade do Sertão nordestino.

Em entrevista ao jornal galego Nós Diario, Lira falou sobre o filme, sua trajetória no cinema documental e as transformações pelas quais passou a produção cinematográfica brasileira nas últimas décadas.

“Trapiá” acompanha uma comunidade localizada na região da Serra do Urubu, no Sertão, território marcado historicamente pela seca. É também nessa área que está sendo instalado um radiotelescópio com participação internacional, escolhido por apresentar condições favoráveis para observações do universo devido ao baixo nível de interferência de ondas.

O filme parte justamente do contraste entre a chegada de uma estrutura tecnológica de grande porte e as tradições preservadas pela população local.

Entre os elementos retratados está a Malhação de Judas, tradição realizada durante a Semana Santa. Lira mostra a convivência entre máscaras produzidas artesanalmente e outras industrializadas, influenciadas pela cultura pop, além da presença de diferentes manifestações religiosas e do uso das redes sociais.

Para o cineasta, o objetivo não é fazer uma crítica direta às mudanças, mas registrar uma realidade em transformação. O documentário acompanha personagens e suas relações com a tradição, a modernidade, a religião e as novas formas de comunicação.

O outro Sertão

O título do filme faz referência ao trapiá, árvore resistente à seca cujo fruto, segundo Lira, chegou a ser consumido por pessoas do Sertão em períodos de extrema escassez de alimentos.

O diretor explica que a realidade da comunidade também mudou. A região passou a contar com infraestrutura de abastecimento, incluindo depósitos e poços construídos com apoio governamental.

A proposta de Lira foi mostrar um Sertão que vai além dos estereótipos associados exclusivamente à seca e à pobreza.

O filme apresenta moradores envolvidos com poesia, produção de vídeos para as redes sociais e outras atividades contemporâneas, ao mesmo tempo em que acompanha mulheres ligadas às tradições religiosas e culturais da comunidade.

Trajetória no documentário

O interesse de Bertrand Lira pelo registro da memória e das histórias de vida começou ainda durante sua formação cinematográfica. O diretor também trabalhou com ficção e posteriormente tornou-se professor universitário.

Segundo ele, sua aproximação com o cinema documental foi influenciada por um convênio com a França que levou o cineasta e antropólogo Jean Rouch a desenvolver experiências de formação cinematográfica em diferentes países.

Em 1981, a iniciativa chegou a João Pessoa. Lira foi um dos primeiros paraibanos a trabalhar com Super 8, experiência que ajudou a formar uma tradição de produção documental no estado.

Cinema brasileiro descentralizado

Na entrevista, Bertrand Lira também avaliou as mudanças na produção cinematográfica brasileira. Para ele, o cinema nacional vive um momento de maior prestígio e alcance junto ao público, especialmente pela descentralização da produção.

O cineasta afirma que, até os anos 2000, a maior parte da produção brasileira estava concentrada em São Paulo e no Rio de Janeiro. No Nordeste, segundo ele, a produção era muito menor.

Lira cita como exemplo o pernambucano Kleber Mendonça Filho, diretor de obras como Bacurau e O Agente Secreto, como parte desse movimento de fortalecimento do cinema produzido fora do eixo tradicional.

Na avaliação do paraibano, políticas públicas de incentivo implementadas nas últimas décadas contribuíram para ampliar a produção audiovisual em diferentes regiões do país.

Fonte: Nós Diario e entrevista com Bertrand Lira.

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