Sobre guerra espiritual, otários e eleições
O jornalista e escritor Ruy Castro, ao questionar os milhares e até milhões de seguidores que certos influenciadores digitais atraem, especialmente aqueles que sequer têm uma profissão definida, citou uma célebre frase do showman norte-americano P. T. Barnum (1810–1891), criador do famoso circo Barnum & Bailey e de uma grande “casa de horrores” (o American Museum de Barnum em Nova York), onde exibia atrações exóticas e aberrações: “Nasce um otário por minuto”. Diz Castro que a frase parecia imortal. Apenas parecia. “Isso já era. Hoje é por segundo”, afirma.
Concordo plenamente. Mas não apenas em relação aos seguidores de pessoas de caráter ou gosto duvidoso. Haja vista a multidão de internautas que se informa por Facebook e WhatsApp, por exemplo, e que apresenta negação a qualquer defeito de seus ídolos, sejam artistas ou, principalmente, políticos; e eleitores que acreditam em lobos vestidos de ovelhas.
Há evangélicos que participam de Marchas para Jesus para celebrar o Cristo. Seria óbvio isso, não fossem aqueles que vão a esses eventos para assistir a comícios de políticos candidatos às eleições deste ano. E ouvir asneiras, como a de Flávio Bolsonaro (mais uma), que pegou no microfone para dizer que, nestas eleições, será travada uma “guerra espiritual” entre esquerda e direita. E ele estaria do lado santo dessa guerra.
Como evangélica, jamais participaria de uma marcha como a que aconteceu recentemente em São Paulo. Para mim, um show de horrores, igual a outra marcha em que o pai de Flávio, Jair Bolsonaro, fez arminha para uma multidão de cristãos. Depois do bolsonarismo, nunca mais as igrejas evangélicas foram as mesmas. Eventos evangélicos estão se transformando em eventos políticos de direita e de extrema direita. Tenho saudades de quando não havia essa adoração por políticos nas igrejas. Quando evangélicos, sejam eleitores de esquerda, de direita ou de centro, reuniam-se apenas para orar ou para qualquer outra atividade ligada à sua fé, não para medir santidade entre si tomando por base o voto de cada um.
A marcha paulistana teve um final do tipo “circo dos horrores”, com Flávio querendo incutir na mente dos cristãos que ele é o candidato de Jesus Cristo. E há quem acredite nisso, Ruy Castro. O candidato a presidente e seus amigos políticos que tomaram conta do palanque montado no final do evento só esqueceram de combinar com o Filho de Deus. Ele concordou com essa chapa?
Todos aqueles, cristãos ou não, que acreditam nessa “guerra espiritual” da eleição, que teria o candidato da extrema direita como ícone do movimento evangélico — perdoem meus irmãos da fé que surfam nessa onda —, estão assinando a carteirinha de otário. A guerra não será espiritual, ele sequer entende desses assuntos. A guerra será política, cheia de interesses partidários e pessoais, vestida de fake news e de performances enganadoras.
onho com o dia em que todas as igrejas evangélicas — algumas poucas já estão fazendo isso — proibirão o uso dos púlpitos ou de seus eventos públicos como palanques eleitoreiros. Nesse dia, a união do povo de Deus, tão recomendada por Paulo na Bíblia, terá um importante capítulo. Porque fora da Palavra de Deus, só há desajustes, desunião, destruição e engano.
Por Gisa Veiga

