domingo, abril 19, 2026
Manchete

Alívio durou pouco: Irã diz que voltou a barrar navios em Hormuz; embarcações relatam terem sido alvo de tiros

A Guarda Revolucionária iraniana abordou e atirou em embarcações trafegando pelo estreito de Hormuz neste sábado (18), segundo relatos colhidos pela agência Reuters e a agência britânica de segurança marítima (UKMTO), adicionando incerteza ao cessar-fogo e às negociações de paz entre Estados Unidos e Irã.

Algumas horas depois, o presidente americano, Donald Trump, afirmou que o Irã estava “fazendo graça” e que o rival não conseguirá chantagear os EUA.

Um comboio de oito navios-tanque trafegavam na manhã de sábado no estreito, marcando a primeira movimentação significativa na via marítima desde o início da guerra dos EUA e Israel contra Teerã, há sete semanas. As duas partes afirmaram nesta sexta (17) que o estreito havia sido reaberto, ainda que restassem divergências entre os rivais.

Segundo a agência Reuters, no entanto, citando pessoas do setor de segurança e frete marítimos, ao menos duas embarcações relataram terem sido alvo de tiros neste sábado ao tentar cruzar o estreito; a Marinha iraniana também teria informado navios, via rádio, que a via marítima estava novamente fechada.

Já a UKMTO relatou incidente em que um navio teria sido abordado por dois barcos da Guarda Revolucionária iraniana, que atiraram na embarcação abordada; ninguém teria sido ferido. Duas horas depois, outro relato de um navio de contêineres próximo a Omã indica que um projétil atingiu a embarcação e danificou uma parte da carga.

A tentativa de retomada do tráfego ocorre em meio a grande incerteza sobre o status real da via marítima, embora o presidente Donald Trump e Teerã tenham anunciado nesta sexta a reabertura total de Hormuz, devido às discordâncias sobre o bloqueio que os EUA ainda mantêm aos portos iranianos.

Teerã afirmou que voltou a impor regras rígidas na passagem após o que classificou de violações e atos de pirataria por parte dos EUA sob o pretexto de bloqueio. Trump havia dito nesta sexta que manterá o veto americano feito na região para navios com origem e destino em portos iranianos.

Segundo autoridades iranianas, a liberação recente para um número limitado de embarcações ocorreu “de boa-fé”, mas teria sido revertida diante da escalada de tensões. Trump afirmou que está tendo boas conversas com o regime iraniano. “Eles queriam fechar o estreito de novo, como têm feito por anos, e não vão conseguir nos chantagear”, disse.

Autoridades ouvidas sob anonimato pelo veículo Wall Street Journal afirmaram que as Forças Armadas americanas estão se preparando para abordar, já nos próximos dias, petroleiros ligados ao Irã e apreender navios comerciais em águas internacionais. Isso expandiria o controle americano para além das águas do Oriente Médio, segundo a reportagem.

Nos últimos dias, em declaração em seu canal no Telegram, o líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, afirmou que a Marinha do país persa está pronta para infligir “novas derrotas amargas” aos inimigos.

Dados do site de monitoramento de navios MarineTraffic indicam que quatro navios de gás liquefeito, além de petroleiros de derivados e químicos, transitavam por águas iranianas ao sul da ilha de Larak, com outras embarcações a caminho da área a partir do Golfo.

Também não há clareza sobre a retomada de negociações diretas entre EUA e Irã, especialmente diante do impasse sobre o programa nuclear iraniano —um dos principais pontos de atrito. “Ou eles nos dão nossos direitos na mesa de negociação, ou o faremos no campo de batalha”, afirmou neste sábado o vice-presidente iraniano Mohammad Aref.

Trump tinha afirmado na sexta que havia “boas notícias” em relação ao Irã e disse esperar avanços nas negociações ao longo do fim de semana, mas voltou a alertar que os combates poderiam ser retomados caso não houvesse acordo até a próxima quarta-feira (22), quando expira o cessar-fogo.

“Talvez eu não estenda [a trégua], mas o bloqueio vai continuar. Então você tem um bloqueio e, infelizmente, teremos que voltar a lançar bombas”, afirmou.Ainda na sexta, Trump disse que o Irã teria se comprometido a não mais fechar Hormuz e que “a situação acabou”. Segundo Trump, as minas colocadas pela teocracia no estreito “foram removidas ou estão sendo removidas” de forma conjunta pelos dois países, algo que Teerã não havia comentado antes de anunciar o novo fechamento da via marítima.

A TV estatal iraniana disse também na sexta que a liberação condicionada à trégua só seria mantida se os EUA acabarem com o bloqueio. A Guarda Revolucionária emitiu comunicado reafirmando esse cenário, que chamou de “nova ordem” no tráfego da região, e disse que vetaria qualquer embarcação militar estrangeira.

O conflito, iniciado em 28 de fevereiro com ataques de EUA e Israel ao Irã, já deixou milhares de mortos, expandiu-se para o Líbano e provocou alta nos preços do petróleo em razão do fechamento do estreito. Na sexta, os preços da commodity recuaram cerca de 10% com a perspectiva de retomada do tráfego marítimo. O movimento ocorre ainda dias após um cessar-fogo de dez dias mediado pelos EUA entre Israel e Líbano.

Nos bastidores, há dúvidas sobre a realização de novas rodadas de negociações neste fim de semana. Embora Trump tenha mencionado possíveis encontros, diplomatas apontam dificuldades logísticas para uma reunião em Islamabad, no Paquistão, onde as conversas são esperadas. Até a manhã de sábado, não havia sinais concretos de preparação para o encontro.

Autoridades paquistanesas que atuam como mediadoras indicam que um eventual entendimento inicial poderia abrir caminho para um acordo de paz mais amplo em até 60 dias.

O programa nuclear segue como principal entrave. Enquanto Washington defende a retirada dos estoques de urânio enriquecido do Irã, Teerã insiste em manter o material e afirma que seu programa tem fins civis. Propostas discutidas recentemente incluem a suspensão das atividades nucleares iranianas por até 20 anos, segundo os EUA, ou por um período entre três e cinco anos, segundo pessoas próximas às negociações.

Neste sábado, Alexei Likhachev, chefe da empresa estatal russa de energia nuclear, a Rosatom, afirmou que a companhia acompanha de perto as negociações entre EUA e Irã e que estaria pronta para retirar do Irã o estoque de urânio enriquecido do país persa.

 

  • Fonte: Folha de S. Paulo
  • Foto: RS/Fotos Públicas

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