Onde a gente descansa quando perde o colo da mãe?
Hoje é o Dia das Mães. Para quem já não a tem, pode ser um momento de tristeza. Afinal, onde a gente descansa quando perde o colo da mãe? Esse é o título do artigo publicado no site da Folha/UOL escrito por Carol Tilkian, psicanalista, pesquisadora de relacionamentos e palestrante,fundadora do podcast e do canal Amores Possíveis e professora da Casa do Saber. Reproduzimos, a seguir, esse belo texto:
O tempo não é linear, diz a física quântica. O luto não é linear, afirma a psicanálise. E a minha mãe, o que diria pra mim? Há dias em que a saudade dói mais. Dias em que o silêncio deixado pela falta dela faz ecoar medos e desamparos que se multiplicaram quando ela se foi. O Dia das Mães é, pra mim e pra muitos, um desses dias em que a ausência se faz dolorosa e amorosamente presente. Que falta ela faz…
Perdi minha mãe aos 5 anos mas sinto que todo mundo que perde a mãe —aos 5 ou aos 55— se vê criança desamparada, sem ter pra onde correr pra se acolher, descansar, desaguar. E tem momentos da vida em que faz falta esse colo pra descansar e ouvir aquelas falas de “vai ficar tudo bem” e “eu entendo você”. Ela… Que entende a gente quando nem a gente se entende. Perder a mãe é perder a tradutora do afeto. É perder a fonte primordial de amor. É deixar de ser filho pra ser “gente grande” lançada no trapézio da vida sem rede de proteção.
Perder a mãe é perder a ilusão de que existe um lugar 100% seguro. Um lugar de completude que sabemos não existir mas que, com ela, reaparecia como colo, cobertor quentinho, toque suave dos dedos fazendo cafuné. Pequenos gestos que abriam portais para aquela sensação primeva de completude.
Perder a mãe é também perder um pouco da ingenuidade e duvidar da capacidade de estar só. Winnicott nos ensinou que aprendemos a estar só na presença de alguém e que o primeiro espaço de acolhimento é o colo materno.
A mãe não apenas ampara fisicamente o bebê, mas também oferece um espaço psíquico, emocional e simbólico, no qual a criança pode sentir-se segura para explorar, sentir e existir. “É a partir da confiança na mãe que a criança aprende a confiar no mundo”. Sem ela a gente desconfia da gente e do mundo.
“Sua mãe estava muito doente, ela foi descansar” disse meu pai a seus dois filhos no colo —eu tinha 5, meu irmão 3. Quietos nos abraçávamos sentindo as lágrimas rolarem naqueles três rostos cúmplices de uma partida prematura. Acho que toda morte de mãe é prematura.
Nicole Kidman contou que, ao perder a mãe, ouviu: “ela já tinha 84. Vocês viveram muito juntas”. E respondeu: “mas era a minha mãe e eu era sua menina”. A atriz conta ainda que em uma das últimas conversas, ouviu da mãe: “descansa, cuida de você”. De novo, o descansar.
Com muitos anos de análise entendi que, pra mim, descansar era morrer. E que sem mãe e sem conselho de mãe, fui aprendendo a “fazer por merecer”. A fazer, fazer, fazer. Pra não dar trabalho ao pai recém viúvo, pra não correr o risco que o silêncio da falta me paralisasse ou afastasse os outros.
Às vezes, numa tentativa inconsciente de manter essa mãe por perto, nos tornamos cúmplices da falta. Como se permanecer na dor fosse uma forma de permanecer com ela. Mas ainda assim ela não está lá. Nem nós. Nem possíveis novos amores que interditamos prematuramente tentando poupar a dor de mais uma perda prematura.
Parece que nunca mais vai ficar tudo bem. Não quero soar fatalista. A gente vai ser feliz, honrar os aprendizados e se conectar pelo amor e não só pela dor. Mas a falta dela sempre vai fazer falta. Eu sei, eu sinto. A falta da mãe não se supera, se cuida.
Há um buraquinho na gente. E poder nomeá-lo, sem tentar resolver, é precioso. O luto vem em ondas. Acolha-o. Que você possa se tratar com a mesma delicadeza que um dia recebeu. Lembrando que ela nos incentivaria a descansar, a sonhar e a desaguar em lágrimas quando a emoção transborda. Se a falta fizer mais falta esses dias, saiba que você não está só. Vai ficar tudo bem. Eu entendo você.
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- Texto de Carol Tilkian reproduzido do site da Folha/UOL
- Veja publicação original em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/amor-cronico/2026/05/onde-a-gente-descansa-quando-perde-o-colo-da-mae.shtml
- Foto: Gustavo Fring/Pexels

