O negócio é “lacrar”
Como são estranhos os parlamentares de extrema-direita!
Vocês podem não acreditar, mas havia vida inteligente na direita de tempos atrás. E não havia, com raras exceções, discursos frequentes de ódio intenso por tudo e por todos os que não dizem amém aos seus delírios.
Hoje, a direita se converteu em extrema-direita, e discurso de ódio é sempre externado como elemento identificador desse grupo. Lacração, em tempos de redes sociais e seus almejados engajamentos, é fundamental para a sobrevivência de seus integrantes.
A nova lacração vem do deputado Nicolas Ferreira (PL), que inventou uma caminhada de Minas Gerais, seu estado, até Brasília. Parece mais uma manifestação de estudantes ricos, ridicularizando a política brasileira e deixando de escanteio o que realmente interessa à população. Mas, pra quê, mesmo, essa marcha?, perguntei a um bolsonarista. Não soube responder. “Contra o sistema que está aí”, desconversou.
Eu poderia ter aprofundado a conversa com a pergunta “que sistema?”, ou “o que significa o sistema para você?”, ou “o que o povo brasileiro ganha com essa lacração”? Mas, tenho preguiça de debater com pessoas assim. Na primeira resposta, já desisto.
Nicolas só quer lacrar, como Bolsonaro gostava de fazer o mesmo com suas motociatas. Projeto bom na Câmara dos Deputados, esse parlamentar não tem. Tive a curiosidade de abrir uma das páginas que fala sobre seu trabalho, e o que vi foram projetos vazios citados como de “educação” e “discursos fortes e polêmicos”. Na “educação”, pouco se aproveita. São propostas bem rasinhas, nada que vá a fundo, mesmo, na melhoria do setor. Seu trabalho é mais voltado para a pauta dos costumes. Nada que mude a realidade do povo brasileiro.
Ah, claro, ele também apresentou propostas na área da Segurança, como facilitar o acesso do cidadão comum a armas e munições. Nada que, de fato, incremente a Segurança Pública, muito pelo contrário.
Daqui para as eleições, prepare-se para mais encenações, discursos odiosos e mais lacração. É o que ele e sua turma sabem fazer.
Não sou de desejar mal a ninguém, mas eu confesso que ri muito com a carinha de sofredor de Nicolas ao perceber que seus pezinhos delicados não suportam caminhada tão longa. Um outro bolsonarista tentava ajudá-lo a caminhar, só faltou carregá-lo nos braços. Um carro particular passou, deu uma paradinha, uma loira no banco de trás gritou “tamo junto”, mas não arredou o pé do carro, que disparou em seguida.
Em tempo: a lacradora caminhada seria contra as condenações referentes aos crimes cometidos em 8 de janeiro de 2023, na Praça dos Três Poderes, e à tentativa de golpe de Estado. Seria, mas a verdade é que é uma marcha fake, puramente parte de sua campanha eleitoral, de autopromoção. Mudar decisões judiciais, ele sabe que isso não vai acontecer. Portanto, o objetivo principal da ridícula marcha, o deputado conseguiu: “bombou” nas suas redes sociais, engajamento extraordinário. Na verdade, era tudo o que ele queria mesmo, neste ano de eleição. Só isso.
Êêê, ôôô, vida de gado…
Gisa Veiga
(Publicado originalmente no Jornal A União desta quarta-feira, 28/1)

