Mais leveza no ano novo
O jornal A União publicou, na semana passada, matéria com algumas pessoas que costumam elaborar metas para o ano novo. Tudo muito bem organizado, algumas separando projetos pessoais dos profissionais. Uma maravilha!
Maravilha para quem consegue cumprir pelo menos 80% do que planejou. Mas, eis que a realidade dá uma rasteira nas expectativas. E aí você começa a tomar verdadeiro pânico dessas listinhas.
Pessoas com TDAH não costumam aderir à prática que contamina tantos brasileiros. É que essa organização metódica fica meio sufocada entre tantos outros pensamentos que surgem atravessados, desordenados, movendo as ideias de lugar. Isso sem falar que a memória é uma característica bastante invejada por esses seres do tipo neurodivergentes. Para lembrar do que enumeraram, seriam necessárias várias consultas ao caderninho em que escreveram as metas. Cadê o caderninho? Onde eu coloquei? E dá para lembrar de consultar?
Eu não costumo elaborar essas listas. Principalmente se um dia marquei como prioridade e simplesmente deletei do meu cérebro, sem razão plausível, uma academia que pretendia voltar a frequentar, até por recomendação médica. E daquela vez que planejei aquela viagenzinha gostosa com o marido para desopilar, durante as férias, e eu não saí de casa, por pura preguiça?
Eu detesto quando eu sou a causa de minhas decepções. Auto-sabotagem? Acho que não é o caso. O que sei é que um dia me senti meio que obrigada a seguir esse costume, e detesto ser obrigada a fazer coisas que, na realidade, eu não sou obrigada, ora essa! Causam-me bloqueios frases do tipo “tem que ler”, “tem que assistir”, “tem que ter”. Isso não funciona comigo.
O que deveria ser um norteador de boas práticas para o ano acaba se tornando uma cobrança difícil de carregar. Também detesto sentir-me culpada ou em dívida comigo. E odeio expor minhas fraquezas — neste artigo, faço uma exceção, talvez como forma de me libertar dessa tirania. Tomara que não me arrependa depois.
Não vou idealizar um ano cheio de bons projetos, e não haverá nenhum “tenho que”, embora não me saia da cabeça a necessidade de voltar à academia de ginástica. Vou respeitar meus limites, meu tempo. Não lido bem com a ansiedade.
Para todos os que, com ou sem TDAH, odeiam ser pressionados, inclusive por si mesmos, fica a dica: melhor deixar as coisas fluírem no percurso dos dias, o que não significa abandonar sonhos e desejos. Apenas lembrá-los ou alimentá-los sem peso, sem angústia, sem se violentar. Foi assim que passei por este ano.
E querem saber? Não fui para a academia em 2025, não fui ao cinema, não viajei, não troquei de carro e o ano foi maravilhoso, além de qualquer expectativa que eu tivesse anotado. Essa é a melhor sensação que se pode ter quando o ano termina.
Que venha 2026 com mais leveza. A todos, um feliz ano novo!
- Gisa Veiga
- Artigo publicado originariamente no Jornal A União

