Hugo Motta articula reeleição na Câmara, e Centrão tenta conter avanço do PL
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), antecipou as articulações para permanecer no comando da Casa diante das sinalizações de que o PL pretende disputar as presidências do Legislativo.
A estratégia passa por manter a interlocução com a esquerda e negociar com partidos de centro e de direita, independentemente de quem vencer o segundo turno presidencial. Na avaliação de aliados ouvidos pela reportagem, o crescimento do PL não significa que a legenda conseguirá assegurar simultaneamente o Palácio do Planalto e o comando das duas Casas legislativas.
“O PL cresceu, mas dificilmente terá, ao mesmo tempo, a presidência da República, da Câmara e do Senado, isso enfraqueceria todos os outros partidos”, afirmou um interlocutor de Motta ao g1.
Integrantes desse grupo lembram que o Congresso ampliou sua influência nos últimos anos ao preservar autonomia em relação ao governo federal. O fortalecimento das emendas parlamentares é citado como um dos resultados dessa relação, na qual o apoio ao Executivo depende de negociações entre as forças políticas.
Declaração de Flávio antecipa disputa
A movimentação de Motta ganhou urgência depois que o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) indicou que seu campo político teria condições de conquistar o comando do Legislativo.
“Com maioria no Senado para fazer o presidente do Senado, com maioria na Câmara para fazer o presidente da Câmara”, disse Flávio na semana passada, durante um evento em Goiânia.
O presidente da Casa também mantém conversas com aliados próximos, como os líderes do PP, deputado Dr. Luizinho (RJ), e do MDB, deputado Isnaldo Bulhões (AL). A expectativa de seu entorno é contar ainda com o Podemos e com os votos de PT, PSB, PSOL, PCdoB, PDT, PV e Rede. Juntas, essas sete legendas de esquerda terão 124 deputados federais na próxima legislatura.
Esse contingente não assegura sozinho a eleição, mas pode ser decisivo na composição de uma maioria. Interlocutores de Motta recordam que, após a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022, os partidos de esquerda reuniam cerca de 130 deputados e também dependiam de acordos com outras bancadas para influenciar a escolha do comando da Câmara.
Apoio a Lula divide avaliações
O posicionamento de Motta na campanha presidencial é um dos pontos de divergência entre os deputados. Durante o primeiro turno, ele pediu publicamente votos para Lula. O gesto foi interpretado como uma tentativa de favorecer a candidatura de seu pai, Nabor Wanderley (Republicanos), ao Senado pela Paraíba, estado com histórico de apoio ao petista. Nabor não foi eleito.
Ao anunciar o apoio do Republicanos a Flávio no segundo turno, o presidente da legenda, deputado Marcos Pereira (SP), afirmou que o candidato não tem resistência a Motta, apesar do posicionamento do PL sobre a disputa pelo comando da Câmara.
A avaliação no entorno do presidente da Casa é que preservar canais de negociação com diferentes partidos oferece mais possibilidades de reunir votos do que um alinhamento integral ao eventual governo.
Disputa pelo Senado entra no cálculo
Os aliados de Motta também trabalham com a avaliação de que a prioridade da direita, neste momento, é conquistar a presidência do Senado. O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, manifesta interesse em chegar ao cargo.
Esse quadro aumenta as dificuldades para a permanência do senador Davi Alcolumbre (União-AP) na presidência do Senado. Ao mesmo tempo, fortalece o argumento dos aliados de Motta de que distribuir o comando das duas Casas entre partidos diferentes ajudaria a equilibrar o poder no Legislativo.
Essa divisão é tratada como uma prática política, embora tenha exceções. Em 2015, Renan Calheiros e Eduardo Cunha comandavam, respectivamente, Senado e Câmara pelo então PMDB, atual MDB. Em 2019, os cargos foram ocupados por Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia, ambos do antigo DEM.
Aliança de Lira serve de referência
A articulação de Motta tem como referência a reeleição de seu antecessor, Arthur Lira (PP-AL). Ele chegou à presidência da Câmara em 2021 com o apoio do então presidente Jair Bolsonaro (PL), mas conseguiu preservar o cargo após a vitória de Lula na eleição presidencial de 2022.
Durante a transição de governo, Lira viabilizou a aprovação da PEC da Transição, que abriu espaço no Orçamento para compromissos do novo Executivo. Em seguida, reuniu uma aliança que incluía PT e PL e foi reeleito com 464 votos, a maior votação registrada em uma eleição para a presidência da Câmara.
Os interlocutores de Motta defendem seguir essa experiência. A intenção é aguardar o resultado do segundo turno presidencial e ampliar as conversas com as forças políticas para negociar sua permanência. Se Flávio vencer, o presidente da Câmara poderá fazer aproximações com o eleito antes da posse, com o argumento de que o exercício do cargo exige articulação com o Executivo.
A definição dependerá da capacidade de Motta de transformar essas negociações em apoio entre os deputados que integrarão a próxima legislatura, responsáveis por escolher o novo comando da Casa.
- Brasil 247
- Foto: Kayo Magalhães/Agência Câmara

