ColunaGisa Veiga

Piscina cheia de ratos

Lendo o noticiário político dos grandes portais de notícias, veio-me à lembrança um antigo sucesso de Cazuza: “O tempo não para”. Especialmente um trecho: “A tua piscina está cheia de ratos”.

Para Carlos Bolsonaro, o filho do ex-presidente em prisão domiciliar, alguns estados estão sendo governados por ratos. Sim, ele chamou de ratos aqueles governadores para quem o tempo não para, para quem é preciso andar, pensar no futuro das eleições sem Bolsonaro. Mas isso é uma traição, para o clã. Como assim, pensar numa eleição sem a participação do chefe da família? E como assim, pensar num futuro político qualquer sem ele? Os ratos estariam loucos?

Carlos, tuas ideias não correspondem aos fatos. O tempo não para. Os fatos acontecem dissociados dos planos de tua família. Por que não aceitar as coisas como elas são? Teu pai está preso — em casa, mas está — e certamente não estará livre para concorrer. Mas, ainda que essa hipótese de liberdade seja possível, é preciso trabalhar com a possibilidade mais real, é a lógica da política. Fingir que o tempo parou, que nada mudou, que o cenário político é o mesmo de antes, só trará prejuízo para a extrema-direita.

O vereador tenta “ofender” Ronaldo Caiado, governador de Goiás, e Tarcício de Freitas, de São Paulo, rotulando-os de “governadores democráticos”. Há controvérsias. Não são tão democráticos quanto ele considera. E, se o fossem, isso seria um grande elogio, não um xingamento. Mas a ordem das coisas e dos valores nessa realidade paralela dos bolsonaristas é inteiramente invertida. O que é bom para o Brasil, passa a ser ruim. Porque é ruim para a família deles — digo, para Jair e a filharada, os que se julgam donos da ratoeira toda.

Carlos acredita que os planos dos “governadores democráticos” visam projetos pessoais. E os planos da família do vereador? Seriam visando o bem-estar dos brasileiros?

São chantagens explícitas que fazem governadores do grupo da extrema direita afrouxarem os laços com a família outrora tão poderosa e temida. Caiado, por exemplo, já admite sair candidato a presidente da República, caso Jair continue na enrascada em que se meteu. E o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, anunciou sábado passado, em evento em São Paulo, sua pré-candidatura ao mesmo cargo. Quem há de impedir esses “ratos” de criarem asas? Alguém deveria ter avisado que o compromisso de cada um dos ratinhos seria com a família toda, e não apenas com a pessoa do ex-presidente. Ele não deverá sair candidato? Que pena, né?,os governadores nem cogitam a possibilidade de apoiar Michelle. E aí? Há de se exterminar os ratinhos todos?

A piscina está cheia deles. A família Bolsonaro terá que nadar em águas turvas. Temem afogarem-se, todos, porque os bichinhos estão lá, dando fortes braçadas, e não há ameaça que os faça parar.

Cá pra nós, não torço nem para o lado da grande família, nem para o lado dos “governadores democráticos”. Torço pela piscina.

 

Por Gisa Veiga

Artigo publicado originalmente no Jornal A União desta quarta-feira, 20/8

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