A Copa já não pertence aos mesmos donos
Durante décadas, a Copa do Mundo parecia um clube fechado. Mudavam-se os uniformes, os estádios e os patrocinadores, mas os convidados de honra eram quase sempre os mesmos. Brasil, Alemanha, Itália, Argentina, França, Espanha. O resto do planeta aparecia para compor o cenário, tirar uma foto e, quando muito, protagonizar uma zebra passageira.
Mas talvez estejamos assistindo ao fim dessa lógica.
Ainda é cedo para decretar revoluções. O futebol adora castigar quem faz previsões apressadas. No entanto, há algo diferente no ar. Algo que vai além dos resultados. É uma mudança de equilíbrio.
Quando alguém diz que França ou Espanha podem cair na primeira fase, a reação imediata costuma ser de espanto. Como assim? Estamos falando de seleções recheadas de estrelas, atletas milionários, campeões continentais, jogadores que ocupam as capas dos videogames e dos jornais esportivos.
Só que a Copa nunca foi uma competição de figurinhas brilhantes. É um torneio curto, cruel e cada vez mais democrático.
Enquanto as grandes potências discutem esquemas táticos sofisticados e administram egos de elencos estrelados, países que antes eram considerados figurantes trabalham em silêncio. Investem em formação, exportam jogadores, absorvem metodologias e acumulam experiência internacional.
O Japão talvez seja o símbolo mais evidente desse processo.
Durante muito tempo, a seleção japonesa era vista como uma equipe organizada, disciplinada e limitada. Hoje já não cabe essa descrição. Os japoneses não apenas competem; eles propõem o jogo. Pressionam, aceleram, criam, incomodam. Entram em campo sem a sensação de que estão participando da festa dos outros.
E o Japão não está sozinho.
Marrocos já mostrou que uma semifinal de Copa não é exclusividade de europeus e sul-americanos. Senegal, Coreia do Sul, Estados Unidos, Canadá, Austrália e várias outras seleções aprenderam que o respeito histórico não marca gols.
A verdade é que o futebol globalizou de vez.
Os melhores treinadores circulam pelo mundo. Os dados circulam pelo mundo. Os métodos circulam pelo mundo. Um garoto em Tóquio, Casablanca ou Seul cresce assistindo aos mesmos jogos, estudando os mesmos movimentos e sonhando os mesmos sonhos que um garoto em Madri, Buenos Aires ou São Paulo.
Talvez a grande transformação desta Copa seja justamente essa: ela deixou de ter donos.
As camisas tradicionais continuam pesadas. A história continua importando. Mas a distância entre os gigantes e os aspirantes nunca foi tão pequena.
E quando a distância diminui, o medo muda de lado.
Talvez a pergunta já não seja se uma potência pode cair na primeira fase.
Talvez a pergunta seja quantas potências ainda acreditam que a camisa, sozinha, é suficiente para evitar a queda.
Por Redação


A falta de vontade, talvez seja pelo fato de não terem indentidade ou não sentir o peso de lutar pela copa .