Quando a política muda de lado, é preciso saber por quê
Por Andreina Chaves
A política pode mudar. Alianças podem ser revistas. Pessoas podem repensar escolhas. Isso faz parte da democracia. Mas quando mudanças importantes acontecem justamente na reta final de uma eleição, depois de compromissos, encontros, declarações públicas e construção de alianças, existe uma pergunta legítima que não pode ser silenciada:
O que mudou?
Nos últimos dias, Veneziano Vital do Rêgo viu lideranças políticas que anteriormente estavam ao seu lado anunciarem novas composições eleitorais. Entre os casos noticiados estão mudanças envolvendo lideranças de Piancó, Bayeux, Santa Rita, Alagoinha e outros municípios paraibanos.
E não cabe ao cidadão condenar alguém apenas por ter mudado de posição. Cabe ao cidadão, porém, perguntar. Porque mandato não é propriedade particular. Poder político não pertence ao prefeito, ao senador, ao governador ou a qualquer grupo. O poder pertence ao povo. E quem exerce um mandato público deve explicações ao povo.
Se ontem havia razões para defender uma candidatura e hoje existem razões para abandoná-la, quais são essas razões? O que aconteceu entre o compromisso de ontem e o anúncio de hoje? Houve mudança de projeto? Houve divergência política? Houve novas propostas para os municípios? Houve compromissos administrativos? Quais? Que sejam apresentados publicamente.
Porque transparência não deveria incomodar quem toma decisões pensando exclusivamente no interesse da população. É exatamente nos momentos de grandes movimentações políticas que a sociedade precisa abandonar a condição de espectadora e assumir o seu verdadeiro papel: fiscalizar, questionar e exigir respostas.
Não podemos afirmar, sem provas, que uma mudança de apoio político representa compra de voto, negociação indevida, desvio de recursos ou qualquer outra ilegalidade. Acusações dessa natureza precisam de fatos e investigação. Mas também não é apropriado que decisões políticas relevantes sejam apresentadas à população sem explicação. Perguntar não é acusar. Perguntar é exercer cidadania.
Qual foi a razão concreta da mudança? O que foi discutido? Que compromissos foram assumidos? Existe alguma contrapartida envolvendo o município? Existe destinação de recursos públicos relacionada a essas novas alianças? Se existe, qual é o valor, qual é a finalidade e onde isso está oficialmente registrado?
Essas perguntas não pertencem a Veneziano, a Nabor Wanderley ou a qualquer outro candidato. Essas perguntas pertencem ao povo da Paraíba. E precisam valer para todos, independentemente de partido ou grupo político. Veneziano possui uma trajetória pública que pode e deve ser examinada pelo eleitor pelos seus atos, pelo seu trabalho e pelo seu histórico. Da mesma maneira, Nabor e todos os demais candidatos devem ser avaliados por seus próprios registros e propostas.
Mas existe algo ainda maior do que qualquer candidatura: a confiança do cidadão na política. Quando um apoio anunciado durante meses desaparece a poucos dias de uma eleição, uma explicação pública não deveria ser um favor. Deveria ser uma obrigação moral de quem representa milhares de pessoas. O eleitor não é propriedade de prefeito. O voto não acompanha automaticamente a decisão de uma liderança. E município algum deveria ser tratado como peça de negociação eleitoral.
Cada cidadão tem inteligência, memória e liberdade para decidir. Por isso, aos prefeitos e às lideranças que mudaram de posição, a pergunta deve ser simples, respeitosa e pública: Por quê? Expliquem aos seus municípios. Expliquem aos seus eleitores. Expliquem o que mudou. E, sobretudo, mostrem que por trás dessa decisão existe interesse público — e não interesse particular. Porque democracia não se fortalece com silêncio. Democracia se fortalece com transparência.
E talvez esta eleição deixe uma lição ainda maior para a Paraíba: políticos podem mudar de lado. O povo, também. Mas transparência nas ações é algo inegociável.

