sexta-feira, março 27, 2026
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Modelo pernambucana vira influencer com vídeos hilários de bastidores da moda; é capa da revista Elle com fotos clicadas em Cabaceiras (PB), veja vídeo com ensaio

Nem ela acreditou ao ser aprovada para um casting de desfile de noiva no Recife. Assim Mikaela Gomes, criada em Belo Oriente, distrito de Tracunhaém (PE), debutava como modelo aos 15 anos.

“Era uma fila gigantesca, com um monte de menina bonita. Eu não tinha nem roupa. Estava com top branco, shortinho jeans e sandália de salto de madeira que minha mãe usava para ir à igreja”, recorda-se a top de 25 anos, olhos verdes, 1m79, sobre o início da carreira que a levou para passarelas do mundo e a ser agenciada pela Way Model, em São Paulo.

Uma trajetória de gata borralheira que vira Cinderela da moda permeada por uma verve incomum, que transformou Mikaela em influencer.

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A modelo Mikaela Gomes abre o desfile da estilista Martha Medeiros com modelo de alta-costura em renda, durante evento de inauguração da Escola de Arte Mãos de Martha, em São Miguel dos Milagres (AL), no sábado (21) – Divulgação

Filha de um operário da construção civil e de uma ex-empregada doméstica, ela ganhou fama ao produzir conteúdo para a internet. Desvenda em vídeos hilários os perrengues e o glamour da vida das modelos com tiradas inteligentes e olhar curioso.

A seguir, o relato da pernambucana que conquistou mais de 320 mil seguidores no Instagram e 430 mil no Tik Tok, com posts viralizados que a mostram devorando comidas no backstage, visitando museus na Europa, fazendo piada com looks esquisitos ou voltando às origens no Nordeste.

Foi de lá que neste mês Mikaela fez o ensaio fotográfico para a capa da revista Elle Brasil, diretamente de Cabaceiras (PB), conhecida como a Roliúde brasileira por ser cenário de dezenas de produções cinematográficas, além de abrir e fechar o desfile de alta-costura da estilista Martha Medeiros, em um cenário paradisíaco de São Miguel dos Milagres (AL).

Tudo registrado em vídeos que chegam a alcançar 1,5 milhão de visualizações.

Confira falas da modelo, a seguir:

“Com 15 anos, eu comecei a modelar. Passou na televisão que ia ter um concurso de modelo em Recife. Enchi o saco para participar. Meu pai vendeu rifa para conseguir dinheiro. No final, era uma falcatrua miserável, venda de book. Eu me frustrei um monte.

Depois de uns três meses uma agência entrou em contato com meu pai pelo Facebook. Ele falou para eu tentar mais essa vez. Fiz a avaliação mesmo insegura: ‘Meu Deus, não vou passar nesse negócio’. E o pessoal falou: ‘Nossa, você é maravilhosa!’. E eu pensando comigo: ‘Esse povo tá bem?’.

Estava no primeiro ano do ensino médio. Estudava em Carpina, porque onde morava não tem escola. Era boa aluna e muito conversadeira. Minha professora falava que eu ia ser palestrante.

Surgiu a oportunidade de vir para São Paulo. Fui a quarta colocada em um concurso com meninas do país inteiro. Era a única representante do Nordeste. ELLE-213x300 Modelo pernambucana vira influencer com vídeos hilários de bastidores da moda; é capa da revista Elle com fotos clicadas em Cabaceiras (PB), veja vídeo com ensaio

Voltei pra minha cidade por um ano até que surgiu a oportunidade de viajar para fora com uma agência do México. De lá fui para Turquia. Comecei a trabalhar muito.

Foi quando entrei na Way Models. Minha carreira começou a se tornar mais profissional. Fiquei um tempão quebrando a cara até achar o meu espaço. Infelizmente, a gente precisa ir para fora para ser reconhecida no nosso país. É bem síndrome de vira-lata.

Depois da temporada no exterior, comecei a fazer uma graninha. Aprendi a falar inglês e espanhol. Ia em museu, gosto muito de ler, o que facilitou bastante.

A vida de modelo é solitária, a cada três meses muda de país, de casa. Odeio, gosto de rotina. Eu me casei aos 21 anos. Conheci meu marido na pandemia. Ainda sem filhos, temos dois gastos. É esquema de pirâmide. Você pega um e depois pega outro para o primeiro não ficar sozinho. Fiz um vídeo contando que adotei dois meliantes.

Comecei com os vídeos na Internet porque me deparava com coisas que me perturbavam. A gente chega no backstage para passar o dia inteiro fotografando e só tem água e banana. Alguém tinha que se pronunciar.

Gravava vídeo para dentro da minha bolha no TikTok. Bloqueava para o pessoal da agência não ver, temendo ser boicotada se alguém da moda visse. Quando comecei em 2015, modelos não podiam falar nada.

Só que sempre fui bocuda, tomava a frente de tudo. Quando começou a viralizar, o pessoal da agência me chamou. Pensei que iam me desligar. Muito pelo contrário, eles gostaram e falaram que era legal e eu tinha que continuar fazendo.

Além de trazer um lado humano, de mostrar que o sapato estava doendo e que passava fome, comecei a desmistificar a vida de modelo e a me comunicar para além da bolha da moda.

Mostro um outro lado da carreira, das viagens, dos apartamentos divididos. O primeiro vídeo que viralizou foi de um trabalho no Peru, onde tive um monte de perrengue. Bateu um milhão e meio de visualizações.

Sempre fui muito curiosa. Todo canto que vou, eu quero saber o porquê das coisas. E essa estátua? Tem museu nessa cidade? Quero conhecer a cultura. A arte salva.

Gravo meu dia a dia. Quando estou na casa dos meus pais mostro eles, que também são muito engraçados. Somos uma família cômica, sempre rindo da nossa desgraça.

A minha cabeça é muito criativa. Enquanto gravo, já pensei no que vou falar. Não roteirizo, pois fica engessado. E o nordestino tem essa veia de humor. Ariano Suassuna é o meu escritor favorito.

Em um vídeo, conto que meu programa na infância era ir para velório. Onde eu morava não tinha cemitério. Era a minha forma de conhecer outros lugares. Dependendo do falecido, a prefeitura mandava um ônibus levar o pessoal. Virava excursão. Eu poderia fazer avaliação das melhores funerárias, o melhor caixão.

Um outro que viralizou foi quando acabaram com o meu cabelo em Milão. A galera não sabe mexer com cabelo afro. Fui de trança, mas inventaram de colocar um monte de fio de ferro pra deixar meu cabelo em pé. Tive que passar umas três horas com aquilo enfiado na cabeça. Um show de horror.

Antes eu alisava. Não gostava do volume. Só que passei a conviver com meninas de cabelo cacheado e cheio. Achei bonito e deixei o meu assim. Cortei para tirar toda a química e crescer natural. Demorou alguns anos para eu gostar do meu cabelo.

Na minha família tem indígena, preto, branco. Quando nasce um bebê é sempre um chá de revelação. Ninguém sabe se vai nascer asiático, branco ou preto.

Em Pernambuco, eu sou esquisita, grande demais para as mulheres de lá. O bullying corria solto. Mas eu lidava na porrada. Não tinha essa de ficar mal, entrar em depressão. Deus que me perdoe, mas bullying com bullying se paga.

Desde criança, eu falava que ia ser modelo. O pessoal ria da minha cara. Lembro que meu pai levava muitas revistas e livros pra casa. Aprendi a ler sozinha quando tinha 4 anos. Entrei na escola com 7 porque não tinha nenhuma na minha cidade. A gente era muito pobre, mas meu pai dizia que a gente tinha que ser inteligente.

Ser modelo é uma grande vitória. Meu trabalho mais emblemático foi o desfile da Ellus na São Paulo Fashion Week em 2022. Lembro de ter visto pela televisão Gisele Bündchen desfilando para a marca. Idealizei aquilo. Foi surreal fazer o desfile. Quando saí da passarela, só chorava.

Hoje posso proporcionar uma vida confortável aos meus pais. Eles têm casa própria, dormem tranquilos, sabendo que não vão ser despejados. Com o primeiro cachê, eu fui fazer feira.

Estou vivendo um momento de privilégio, porque tenho influência na internet. Faço muita publicidade para marcas legais. Meus agentes fazem venda casada: meu trabalho de modelo e a produção de conteúdo.

Fiquei feliz quando fiz um vídeo apresentando o artesanato da minha região e consegui impulsionar as vendas, que triplicaram. Tanto que vou receber o título de cidadã honorária dado pela Câmara de Tracunhaém.

É um momento de pensar: ‘Eu venci’. Consegui sair do Brasil, vindo de onde eu vim, uma cidade que só oferece emprego no corte de cana, um trabalho bem desgraçado. Eu me considero uma vencedora”.

 

  • Folha/UOL
  • Fotos: Divulgação

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