domingo, março 22, 2026
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ESPECIAL – Vídeos ASMR provocam de relaxamento a nojo

Joel Cavalcanti*

Um plano fechado mostra uma unha do pé encravada enquanto mãos com luvas utilizam pinça e espátula para levantar a borda da unha presa na pele e remover a causa da inflamação. O vídeo seguinte foca um poro obstruído enquanto um extrator metálico pressiona a pele ao redor até que o cravo seja expelido, pipocando na tela celular. Na sequência, um tapete escurecido pela sujeira passa por inúmeras sequências de água, produtos químicos e esfregões até que as cores originais do tecido reapareçam.

Esses tipos de vídeos de atividades ordinárias da vida que aparecem nas redes sociais causando relaxamento ou repulsa tem um nome: ASMR. A sigla em inglês significa Resposta Sensorial Meridiana Autônoma. Para quem sente o efeito calmante desses vídeos, a reação é descrita como um formigamento prazeroso no couro cabeludo e na nuca, acompanhado de relaxamento profundo, sonolência e uma leve sensação de bem-estar.

Mas nem todo mundo reage da mesma forma. Enquanto alguns relatam calma imediata, outros experimentam indiferença ou até nojo. Ainda assim, os números mostram que o interesse é massivo. Vídeos com a hashtag #ASMR acumulam bilhões de visualizações no TikTok. No YouTube, canais dedicados a sussurros, sons repetitivos e cenas organizadas reúnem milhões de seguidores e bilhões de visualizações ao longo dos anos. O que começou como um relato isolado em fóruns online se tornou em um dos gêneros mais consumidos da internet.

A comissária de bordo Graziele Waltz, 34 anos, é parte dessa audiência. Ela tem uma rotina corrida e estressante, com tempo cronometrado para tudo. Seus vídeos favoritos para relaxar são justamente os de desencravamento de unha. “O que mais me atrai é a suavidade do processo e aquela sensação de ‘alívio visual’ quando a unha fica limpa e totalmente desobstruída”, relata. “Ver tudo organizadinho e resolvido me dá uma sensação muito boa, quase terapêutica.”

Para ela, o prazer é essencialmente visual. “Não é tanto pelo som, mas mais pela parte visual e pela ideia de limpeza e cuidado.” Ao mesmo tempo, há conteúdos que produzem o efeito contrário nela. “Uma coisa que muita gente ama e que comigo não funciona de jeito nenhum são aqueles barulhos de unha batendo em embalagem ou raspando produtos. Eu acho péssimo ao invés de relaxar, me estressa muito”.

Para o neuropsicólogo Robert Sérgio de Almeida Costa, professor de Psicologia com mestrado em Neurociência Cognitiva e Comportamento pela Universidade Federal da Paraíba, a internet foi decisiva nesse crescimento dos vídeos de ASMR.

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A internet facilita a propagação em larga escala de práticas que, quando compartilhadas, constroem grupos e verdadeiras comunidades com suas características e seus adeptos”, afirma. Segundo ele, as redes sociais ampliam comportamentos coletivos que já fazem parte da organização humana há milênios.

O termo ASMR foi documentado pela primeira vez em 2010 pela norte-americana Jennifer Allen, em fóruns online. Ela descreveu uma sensação de relaxamento profundo desencadeada por estímulos específicos, como vozes suaves e movimentos delicados. “Allen não é cientista, mas percebeu que outras pessoas compartilhavam sensações semelhantes e iniciou um movimento que, anos depois, se tornou objeto de estudos científicos”, explica Costa.

Do ponto de vista neurocientífico, ele define o fenômeno como “uma resposta fisiológica sensorial autônoma”, ou seja, involuntária. “São reações pelas quais não temos controle direto, porque são respostas do Sistema Nervoso Autônomo”, detalha. Esse sistema regula funções vitais como respiração, pressão arterial e digestão. Costa explica que o ASMR provoca um baixo nível de excitação fisiológica. “ASMR é uma experiência sensorial complexa com baixa excitação, que acarreta relaxamento profundo”, diz. 

No cérebro, segundo ele, há ativação de áreas relacionadas ao sistema de recompensa e prazer, com liberação de dopamina em níveis baixos e constantes. Estudos publicados desde 2015, utilizando técnicas como ressonância magnética funcional e eletroencefalografia, identificaram padrões específicos de ativação cerebral em pessoas que relatam sentir ASMR. “É um fenômeno real e mensurável”, afirma. Ao mesmo tempo, ressalta que se trata de um campo ainda em construção científica.

Em vídeos considerados repulsivos por alguns, como extração de cravos ou remoção de carrapatos, o mecanismo pode inverter a sensação. “Se está assistindo a uma tela, nosso sistema de avaliação percebe que não há perigo real”, explica. Assim, a resolução previsível pode superar o nojo e ser interpretada como recompensa. Essa diferença de reação tem explicação. Segundo Costa, os seres humanos buscam previsibilidade. 

“O cérebro ama organização. Isso reduz a carga cognitiva da incerteza ou de erros. Se o cérebro sabe o que vem a seguir, ele pode relaxar”. Padrões repetitivos e organizados ativam circuitos neurais de recompensa e reduzem a ativação da amígdala, região associada ao estado de alerta e à resposta de luta ou fuga. Em termos simples, ele resume: “O ASMR é entendido pelo cérebro de quem sente quase como sendo a sensação de ser cuidado por outra pessoa”.

Nem todos, porém, são igualmente suscetíveis a esses tipos de estímulos. E não sentir nada também comum. Estudos apontam associação entre ASMR e traços como alta abertura à experiência e maior tendência à ansiedade. “Pessoas mais ansiosas podem ser mais receptivas à regulação emocional via prazer e recompensa”, afirma o neuropsicólogo. Ele destaca, no entanto, que ainda não se pode falar em causa e efeito definitivo. 

Para Graziele, o gosto por esse tipo de ASMR de desencravamento de unha diz algo sobre seu perfil. “Eu acho que o ASMR mostra que eu sou bem visual e gosto daquela sensação de ver tudo ficando organizado e resolvido, me dá uma ‘satisfaçãozinha’ boa”, acredita ela. No dia a dia, muitos recorrem ao ASMR para dormir ou aliviar sintomas de ansiedade. Graziele diz que, no seu caso, não é assim. “Pra mim, o ASMR é mais entretenimento mesmo, como se fosse uma série. Eu não uso necessariamente pra dormir ou aliviar ansiedade, é mais porque eu gosto de assistir”. 

Ela conta que vê praticamente todos os dias, sempre que o algoritmo sugere novos vídeos. Ao lembrar da infância, associa a experiência a uma sensação antiga: “Uma coisa parecida que vem da infância é aquela sensação de tirar a cola seca da mão”. Costa pondera que o consumo frequente desse tipo de conteúdo levanta a hipótese de dependência e que o uso excessivo pode levar à tolerância. 

“O cérebro se acostuma com o estímulo e para de responder com a mesma intensidade”, explica. Ele ressalta que não se trata de dependência química, mas pode haver uma dependência comportamental para sono ou controle do estresse. “Nesses casos, recomenda-se um período de abstinência para o cérebro recuperar os efeitos”.

Para a ciência, o fenômeno também demonstra que, quanto mais uma pessoa se expõe aos estímulos do ASMR, maior tende a ser o fortalecimento de certas redes neurais. Nesse contexto, os vídeos e sons satisfatórios passam a funcionar como um gatilho aprendido pelo cérebro. Para o especialista, a popularização desses vídeos mostra como a tecnologia pode alterar a forma como reagimos a estímulos que evocam cuidado, proximidade e previsibilidade. “Estamos, portanto, criando novas formas de suprir necessidades biológicas de conexão e calma em um mundo cada vez mais isolado fisicamente, urgente e hiperestimulado”.

 

  • Repórter do Jornal A União. Texto publicado na edição deste domingo do jornal
  • Foto: Reprodução

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