ESPECIAL – Hoje faz 50 anos de uma das maiores tragédias da história de João Pessoa
Em 24 de agosto de 1975, há exatos 50 anos, acontecia uma das maiores tragédias da história de João Pessoa. Era um domingo festivo, o Parque Sólon de Lucena era palco de uma exposição do Exército, em comemoração ao Dia do Soldado, celebrado no dia seguinte, 25 de agosto. Os transeuntes podiam ver itens do universo militar, como canhões e viaturas. Mas o que chamou mais a atenção dos que ali estavam era o passeio de portada tipo M-2, espécie de balsa, pela Lagoa. As filas eram gigantescas, as crianças se espremiam para poderem dar uma volta completa na Lagoa naquela embarcação.
“O clima era de festa, as pessoas ansiavam para andar na balsa. Eu e meu colega tínhamos em média 16 anos. Decidimos dar uma volta, porém eu já estava percebendo que a mesma ficava cada vez mais superlotada”, afirmou Luiz Gonzaga, 67 anos, servidor da Empresa Brasileira de Correios e Telegráfos (ECT), que esteve presente no fatídico dia.
O historiador Emílio Ângelo da Silva, que também compartilhou da mesma experiência, destacou que, na época, andar de barco era uma grande novidade para a maioria da população. Como,na década de 1970, a vida na capital paraibana se concentrava mais no Centro, não era tão comum idas à praia e passeios desse tipo. Então, foi uma programação que chamou muito a atenção de todos que passavam.
“Eu quis estar presente. Lembro muito bem, minha mãe olhou aquilo tudo e achou inseguro. A gente estava passando de carro próximo à Lagoa e, vendo aquele barco, a ânsia de ir ali era grande, mas a minha mãe proibiu terminantemente. Disse que não deixaria, que achava inseguro. Eu me lembro até hoje dela reclamando disso”, afirmou o historiador.
O pessoense Luiz Gonzaga lembra bem daquele dia. Ele conta que depois de ter conseguido fazer o passeio com o amigo, os dois foram dar uma volta em torno do quarteirão do prédio do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que se situa na via em frente à Lagoa, na Avenida Presidente Getúlio Vargas. “Quando voltamos, o clima era totalmente inverso, as pessoas corriam desesperadas de um lado para outro sem saber o que fazer. Então, não quisemos saber o que de fato estava acontecendo e fomos para nossas casas sem se dar conta do havia acontecido”, explicou.
Luiz contou que achou que pudesse ser uma briga generalizada ou alguma confusão do tipo. Mas a situação era outra. Às 17h15 da tarde do domingo, quando o sol já estava quase se pondo, na última viagem da portada, uma tragédia aconteceu. Como era o derradeiro passeio, as pessoas que estavam na fila não queriam ir para casa sem aquela experiência. A embarcação saiu lotada. Quando ela chegou quase ao centro da Lagoa, quem estava na margem, quase não via o barco. De repente, ouviram gritos, principalmente de crianças. A portada começava a afundar.
A mãe de Ângelo, que na época tinha oito anos, tinha razão. “Houve vários passeios, e foi no último que aconteceu a tragédia. Como ia encerrar, e como tinha muita gente ainda para ir ou querendo ir de novo, então eles não fizeram o controle de chegar e dizer: ‘Olha, não pode mais, tá cheio. Tá passando do limite de segurança’. Aceitaram justamente que fosse um contingente maior de pessoas e conseguinte a isso deu o problema. Aconteceu o naufrágio”, pontuou o historiador.
O Parque Sólon de Lucena foi cenário da morte de 35 pessoas, destas, 29 eram crianças. Bombeiros, policiais e oficiais começaram os socorros de pronto. Enquanto isso, estima-se que cinco mil pessoas observaram tudo da margem. O clima era de desespero. Bombeiros que estavam em casa, de folga, foram recrutados para uma madrugada de trabalhos intensos.
Segundo consta na edição da época do jornal A União, 50 homens participaram dos resgates, e quase todas as unidades militares da Paraíba, além de algumas outras da região, bem como autoridades do Exército. O primeiro corpo a ser resgatado foi o de Maria Elizete de Almeida, 40 anos. Após o dela, seguiram mais 34 corpos. O último foi encontrado apenas na terça-feira.
Uma das vítimas foi o Sargento Reginaldo Calixto. Ele estava passando pela localidade, quando percebeu o tumulto. Sem pestanejar, jogou-se na água para tentar ajudar. Ele nadava até o local, pegava uma criança e voltava. No terceiro trajeto, duas crianças, no desespero, agarraram-se a ele, e, dessa vez, o sargento não retornou mais.
O dia mais triste da história da cidade
Esse foi o título do artigo escrito pelo historiador Ângelo Emílio e publicado em um caderno especial do jornal A União daquele ano. “O número de vítimas crianças é uma coisa terrível. Acredito que talvez seja sim um dos dias mais tristes, porque foi uma coisa chocante. Marcou muita gente. Todo mundo conhecia alguém relacionado às vítimas, às vezes era um vizinho, um parente, um conhecido”.
Já Luiz Gonzaga, puxando pela memória os acontecimentos daquele dia, relatou que não se recorda muito bem se alguém que estava no passeio com ele, utilizava colete salva-vidas, mas ele recorda com clareza de que ele próprio não usava o equipamento de proteção.
O historiador Ângelo corrobora essa versão de que as pessoas que faziam o passeio não estavam utilizando acessórios de segurança e que a causa estabelecida na época foi realmente a quantidade exacerbada de pessoas na embarcação. “No tempo, a causa como tendo sido a superlotação, já era algo posto. Tem na mídia da época, que cobriu o acidente. Eles quiseram agradar as pessoas. Não vamos dizer ‘não’ a ninguém. Mas acontece que você tem regras de segurança. Você não pode colocar em uma embarcação mais gente do que pode. E mais, sem os coletes salva vidas, sem os equipamentos necessários para qualquer emergência. Então, foi o que aconteceu”, esclareceu.
Em nota publicada naquele ano e divulgada na íntegra na edição de 26 de agostodo jornal A União, o Comando do 1º Grupamento de Engenharia explicitou que aquele mesmo barco já havia sido utilizado nos dias anteriores de programação, transportando, ao total, cerca de 6.300 pessoas que foram prestigiar o evento, além de também ter sido usada no ano anterior, sem que tivesse havido qualquer intercorrência. Ainda na nota, a causa atraibuída ao acidente foi outra que não a superlotação, além disso a instituição frisou que a portada, na verdade, tinha capacidade para oito toneladas.
“Em um dado momento da travessia, houve um alarme, por motivo desconhecido de que a embarcação estaria fazendo água, o que provocou pânico. Um grande número de pessoas, deslocando-se para a frente da portada, fez com que a mesma submergisse”, explicou o Grupamento em nota.
Finalizando, então, prestando solidariedade às famílias das vítimas. “Profundamente contristados com o ocorrido, o comando e todos os oficiais e praças desta Guarnição, associam-se à dor das famílias enlutadas e lamenta que uma festa que tantas alegrias estava trazendo ao povo, tenha se transformado em luto coletivo para a brava gente paraibana. Foi aberto o competente inquérito para apurar pormenorizadamente todas as circunstâncias que cercaram o doloroso acontecimento”.
Tanto o prefeito Hermano Almeida, quanto o governador Ivan Bichara, decretaram luto oficial por três dias, na cidade e no estado, a partir do dia seguinte à tragédia. A chefia da Casa Civil dos Governador do Estado suspendeu todas as audiências com o governador para que ele pudesse prestar assistência às famílias das vítimas.
“As palavras não expressam a comoção em que se envolveu a cidade no luto e no sofrimento, mas testemunham o empenho de todos em amenizar a tragédia que desabou sobre a cidade de João Pessoa de forma fulminante e brutal”, dizia diz nota emitida pelo Gabinete do Governador no dia seguinte.
De acordo com a edição do dia 27 de agosto de 1975, do jornal A União, as famílias dos mortos foram visitadas pela secretária do Trabalho e Serviços Sociais, juntamente com assistentes sociais e oficiais do I Grupamento de Engenharia, com a finalidade de oferecer o apoio do Governo nas providências iniciais após o acidente.
Lagoa 1975: O passeio que não terminou
Um documentário, de 14 minutos e 51 segundos sobre o caso, foi produzido pela TV Assembleia da Paraíba, intitulado “Lagoa 1975: o passeio que não terminou”.
Na obra audiovisual, o jornalista Gilvan de Brito, autor do livro “Opus Diaboli: A Lagoa e Outras Tragédias”, conta que, inicialmente, o oficial que estava encarregado pelo passeio, negou-se a levar aquela quantidade superior de pessoas. Contudo, a insistência foi tão grande que ele acabou levando todos que aguardavam na fila, por volta de 200 pessoas. Os relatos do documentário dizem que a capacidade máxima era de 60 pessoas.
Edson Almeida, personagem do documentário e filho de uma das vítimas, também contou seu relato. Na ocasião, ele perdeu sua mãe e mais dois irmãos. A sua história ficou conhecida. Outras pessoas que estavam naquele dia contaram a situação de um pai desesperado na margem, pois tinha perdido sua mulher e seus dois filhos. Edson escapou porque preferiu ficar com o outro irmão em casa, pois tinha marcado de jogar bola naquele dia.
Memorial
“Creio ser importante lembrar a tragédia da Lagoa como memorial aos que se foram e também para que as autoridades possam ter maiores critérios na hora de oferecer algo dessa natureza, sobretudo, envolvendo uma grande massa”, ressaltou Luiz Gonzaga.
O historiador Ângelo Emílio é um grande defensor da criação de um memorial em homenagem às vítimas. Algumas famílias, 26, na verdade, entraram na Justiça e tiveram o direito de reparação reconhecido, sendo o Estado Federal responsabilizado pelo acidente, contudo, meia década depois, ninguém foi culpabilizado nominalmente e a tragédia é muito pouco lembrada. “Parece-me que uma decisão fundamental de nossas autoridades, eventualmente da Câmara dos Vereadores ou de qualquer outra instância, seria construir um memorial em nome das vítimas. Afinal de contas, já se passaram cinco décadas, acho que já demorou demais para que a cidade fizesse essa espécie de acerto de contas”. Ele ainda acrescenta que as vítimas foram nossos conterrâneos, cidadãos pessoenses, que merecem ser lembrados. “Seria extremamente injusto da nossa parte, como posteridade deles, deixar propositalmente ou por descuido, por desleixo, essa memória se apagar. Essa memória é importante para a gente demarcar que um dia essas pessoas estiveram aqui, que houve essa tragédia por negligência, e que esses nomes fiquem para nos lembrarem sempre efetivamente da presença física e social dessas pessoas, de suas memórias e da necessidade de sempre defender o maior cuidado com as atividades públicas e um regime efetivamente democrático”.
Memória – O professor de História ressaltou o papel da memória na construção de uma cidade e de uma sociedade democrática. “Na construção de uma cidade democrática, a memória joga um papel importante. À medida que a gente efetivamente tem consciência de nossa trajetória, de onde nós viemos, onde nós estamos, o que nos trouxe até aqui, a gente consegue projetar efetivamente perspectivas mais construtivas de futuro. Então, apostar efetivamente numa cidadania plena, apostar numa democracia, é apostar na construção de um futuro mais promissor para o país e para a nossa cidade”, finalizou.
Para não esquecer
Nomes das vítimas da tragédia da Lagoa, de acordo com publicação do jornal A União daquele ano:
Ailton de Souza – 11 anos
Alexandre Pinto de Lemos – 3 anos
Bernadete de Lourdes Azevedo Rodrigues – 13 anos
Carlos Alberto Nóbrega – 19 anos
Cláudio José Freitas de Almeida – 9 anos
Denize de Azevedo Leite – 10 anos
Edilio Basseto – 30 anos ok
Eredimar Batista Leite Gomes – 8 anos
Ermes Pessoa de Almeida Filho – 11 anos
Francinete Marinho – 17 anos
Geane Sandra Arruda e Silva – 6 anos
Genilda da Silva Amorim – 20 anos
Genival Barros de Araújo – 14 anos
Gildivam Vieira da Silva – 7 anos
Gilson Viera da Silva – 5 anos
Irene Lopes Vieira – 43 anos
Ivânia das Neves Silva – 3 anos
Ivanilson Pinto de Lemos – 5 anos
Jailma Batista Leite Gomes – 9 anos
Jailton Batista Leite Gomes – 6 anos
Jean Sérgio de Arruda e Silva
João Elder Bandeira de Almeida
Joelma Solange de Arruda – 3 anos
José Soares
José Wertes Abrantes de França – 7 anos
Maria Célia Silva
Maria da Conceição – 13 anos
Maria de Fátima Genésio dos Santos
Maria Elizete de Almeida – 40 anos
Maria José Apolinário da Silva – 22 anos
Marieta de Souza da Silva
Paulo Sérgio da Silva Mesquita – 7 anos
Paulo Xavier de Mesquita
Reginaldo Calixto da Silva – 30 anos
Wilberto Rodrigues da Silva – 7 anos
Programação Dia do Soldado 2025
Para celebrar o Dia do Soldado deste ano, o 1º Grupamento de Engenharia está promovendo uma semana de atividades comemorativas, incluindo eventos internos e abertos à sociedade civil, como palestras, celebrações religiosas e competições esportivas. As ações tiveram início ontem (23) e seguem até a sexta-feira (29).
Hoje (24), às 19h, o Manaíra Shopping será palco da apresentação da Retreta da Banda de Música da Guarnição de João Pessoa, marcando a primeira atividade externa da programação.
A Solenidade Militar em comemoração à data ocorrerá amanhã (25), às 9h, no 15º Batalhão de Infantaria Motorizado em João Pessoa. Haverá a participação de tropas e autoridades, além da entrega de condecorações.
Outra programação aberta à sociedade civil incluirá palestras sobre o Exército Brasileiro em escolas de ensino médio, na quinta-feira (28).
Texto de Camila Monteiro para o Jornal A União deste domingo
Foto/capa: Reprodução
Foto no texto: Roberto Guedes, para o Jornal A União