Acadêmicos de Niterói empolga com homenagem ao presidente Lula e deboche a Bolsonaro; veja fotos e vídeos
A primeira noite do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, começou com o público entoando “Olê, olê, olá, Lula”, slogan de campanhas do presidente Lula, homenageado pela Acadêmicos de Niterói
O desfile destacou a trajetória política do petista e fez críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, retratado como o palhaço Bozo, inclusive atrás das grades.
Lula acompanhou a apresentação de um camarote, ao lado da primeira-dama Janja, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do prefeito Eduardo Paes. Durante o desfile, desceu à pista para cumprimentar integrantes da escola. Janja, inicialmente cotada para desfilar, acabou substituída por Fafá de Belém.
Apesar da empolgação inicial com o slogan de Lula, que também foi refrão do samba, o entusiasmo não foi mantido nas arquibancadas ao longo da apresentação. Um dos carros alegóricos que mostrava o presidente ainda criança, segurando uma estrela, recebeu aplausos, enquanto fotos e bandeiras com seu nome eram vistas entre o público.
Outro ponto alto do desfile foi uma ala com diplomas acadêmicos, em referência à parte do trecho do samba que diz “filho de pobre está virando doutor”.
A escola, que estreou no Grupo Especial, utilizou alegorias e encenações coreografadas para recontar a história recente do Brasil sob uma ótica de resistência e vitória da democracia. A grande estrela foi Lula, o homenageado, mas não faltaram menções aos inimigos que de forma suja e ilegal tentaram vencê-lo.
A sucessão de máscaras: De Temer ao Bozo
Um dos momentos mais comentados ocorreu logo no início do desfile, em uma encenação sobre a linha sucessória da República. O público viu bonecos com cabeças de proporções exageradas, mas realistas, identificando claramente a ex-presidenta Dilma Rousseff, o atual presidente Lula e o ex-presidente golpista Michel Temer.
Na performance, a figura de Temer foi representada “tomando” a faixa presidencial de Dilma, uma alusão direta ao impeachment farsesco e fraudulento de 2016. No entanto, o tom mudou drasticamente na sequência: o personagem que surgiu para receber a faixa de Temer não tinha as feições reais de Jair Bolsonaro, mas sim a maquiagem e os cabelos característicos do palhaço Bozo, apelido pejorativo que marcou sua gestão.
Cela e toga: A sátira da prisão
A crítica subiu de tom nos carros alegóricos. Em uma das composições, a escola apresentou uma cela de prisão onde a figura do Bozo aparecia enclausurada. Ao seu lado, um personagem careca vestindo uma toga, uma referência inequívoca ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, foi representado azucrinando o ex-presidente desesperado.
A cena simbolizou o cerco judicial que culminou na prisão de Bolsonaro. Para fechar o conceito, uma gigantesca alegoria trouxe um boneco colossal do palhaço Bozo sentado atrás de grades de ferro, usando uma tornozeleira eletrônica danificada, enquanto componentes ao redor celebravam o que o samba-enredo chamou de “o triunfo da justiça sobre o medo”.
Contexto real: A Papudinha
A sátira da Sapucaí encontra eco na realidade jurídica enfrentada pelo ex-capitão autoritário que tentou virar ditador, mas se deu mal. Atualmente, Bolsonaro cumpre uma pena de 27 anos e três meses de prisão em regime fechado.
Após um período de prisão domiciliar e passagem pela Superintendência da Polícia Federal, o ex-presidente golpista foi transferido para o 19º Batalhão de Polícia Militar, conhecido como “Papudinha”. O local fica situado dentro do perímetro do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, onde ele permanece sob custódia definitiva por crimes como tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e formação de organização criminosa.
Veja vídeos com os principais momentos em alusão a Bolsonaro:





Na sequência da noite, a Imperatriz Leopoldinense levou para a avenida uma homenagem a Ney Matogrosso, 84. O cantor desfilou com um figurino luxuoso criado pelo carnavalesco Leandro Vieira, com milhares de cristais verdes, moedas douradas e canutilhos.
As alegorias e fantasias percorreram diferentes fases da carreira do artista, como “O Homem Neandertal”, “Bandido”, personagens do Secos e Molhados e o “Bandoleiro”, ressaltando a postura transgressora e política. Entre os destaques visuais estava um lobisomem de 20 metros com efeitos realistas, apesar de um breve problema técnico na pista.
A bateria fez referência ao álbum “Bandido”, enquanto a rainha Iza surgiu fantasiada de serpente. Ao fechar os olhos, a maquiagem das pálpebras mostrava olhos reptilianos, com a pupila vertical. O enredo destacou a recusa de Ney a rótulos e sua resistência durante a ditadura militar. O ponto alto foi a entrada do cantor na última alegoria, quando cantou e dançou, emocionando o público. Antes de desfilar na avenida, o artista afirmou estar “com o coração a mil”.
Para que Ney pudesse acompanhar a evolução da agremiação, a Imperatriz alterou a ordem das alegorias na concentração, posicionando primeiro o carro em que ele desfilava. A estrutura remetia à busca do prazer, com esculturas simbólicas, anjos brindando com vinho, cisnes e outros elementos alegóricos.
Terceira escola a desfilar, a Portela, maior campeã do Carnaval carioca, entrou na avenida com cerca de 40 minutos de atraso, por decisão da Liesa. A medida foi tomada após um carro da Acadêmicos de Niterói apresentar problemas na dispersão. Embora a Imperatriz também tenha enfrentado dificuldades na saída, seu desfile ocorreu dentro do horário previsto. Para evitar impactos na programação, a liga optou por adiar o início da apresentação da Portela.
A escola, porém, poderá perder pontos no quesito evolução, pois seu último carro apresentou atraso para entrar na avenida, A última ala começou o desfile desacompanhada da alegoria. A saída da Portela da pista ocorreu no último minuto, com correria da bateria e tensão entre os integrantes.
Com enredo sobre a realeza negra no Rio Grande do Sul, a escola destacou a trajetória de Custódio Joaquim de Almeida, conhecido como Príncipe Custódio. Ele tornou-se babalorixá e uma das figuras centrais do batuque, a vertente mais antiga das religiões afro-brasileiras no estado, sendo apontado como responsável por difundir rituais religiosos africanos. A Portela busca encerrar o jejum de títulos que dura desde 2017, quando dividiu o campeonato com a Mocidade.
Tradicionalmente ligada a um estilo mais clássico, a azul e branco de Oswaldo Cruz apresentou uma nova faceta na avenida, investindo em tecnologia. A comissão de frente surpreendeu ao exibir um componente “flutuando” sobre a pista, sustentado por um grande drone. Os carros alegóricos apostaram em forte iluminação, e parte das fantasias ganhou efeitos com luzes de Led, como a ala de baianas. As luzes da Sapucaí apagaram para realçar o efeito.
Já a Mangueira foi a escola que mais impactou a Sapucaí, com destaque para o acabamento das fantasias. A verde e rosa fez várias paradinhas e marcou a avenida com cores vibrantes na divisão das alas para homenagear o líder amapaense Raimundo dos Santos Souza, o Mestre Sacaca, apresentado como o Xamã Babalaô que protege a amazônia Negra.
O enredo percorreu os chamados cinco encantos: iniciou com rituais indígenas do Turé, atravessou rios tucujus conectando povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, celebrou a medicina ancestral com ervas e curas, destacou manifestações culturais do Amapá como Marabaixo e Batuque culminando na Missa dos Quilombos, e finalizou com Sacaca se transformando na natureza, reafirmando seu papel como guardião da amazônia negra.
O carro intitulado “Engarrafa a Cura, Vem Alumiar” levou cheiros de ervas medicinais à Sapucaí e exaltou Mestre Sacaca como o “doutor da floresta”. A alegoria destacou suas garrafadas medicinais homenageando parteiras e mulheres beneficiadas por seus remédios, com referência ao apelido espiritual, o “preto velho do Amapá”.
Reportagem de Yuri Eiras, Bruna Fantti, Fábio Pescarini, Cristina Camargo e Leonardo Vieceli.


Lula e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, assistem ao desfile/João Salles | Riotur

