“Não estou nem aí”, afirma Edir Macedo sobre suicídio de pastor da Universal
É preciso reconhecer que os pastores adoecem mentalmente e o ambiente laboral religioso está entre os fatores responsáveis pelo adoecimento
Generais costumam ser empáticos com a morte de seus soldados em combate. Embora o bispo Edir Macedo defina a vida cristã como uma guerra, não demonstrou compaixão ao comentar a morte de Lucas Di Castro, 35 anos, pastor da Igreja Universal do Reino de Deus na Bolívia.
Os pastores estão sempre de plantão para atender chamadas emergenciais da comunidade, escutam desabafos, visitam doentes, realizam cerimônias fúnebres, coordenam campanhas assistenciais e fazem tarefas operacionais e burocráticas do dia a dia das igrejas. Burnout, depressão e suicídio de pastores são mais frequentes que se imagina.
A expansão das igrejas evangélicas tem sido objeto de debate nas últimas décadas no Brasil. Porém, pouco se sabe do custo emocional e mental pago por essa mão de obra religiosa que é responsável pelo sucesso de megaempreendimentos como a IURD ou de igrejas de garagem.
Parte da população vê os pastores como pessoas que não trabalham e enriquecem com o dinheiro dos fiéis. Isso não é verdade. A maioria dos pastores trabalha duro e vive modestamente.
Como pastor desde 1993, sei que riscos psicossociais estão presentes nos ambientes de trabalho religiosos. Embora algumas igrejas já reconheçam que seus pastores adoecem mentalmente e precisam de ajuda profissional, ainda é tabu a discussão sobre como as dinâmicas do trabalho religioso contribuem para os processos de adoecimento mental dos pastores.
De modo exasperado, o bispo Macedo afirma que Lucas Di Castro “nunca foi pastor, ele tinha o título de pastor; mas ele nunca foi um homem de Deus, porque, se fosse, passaria pelos problemas como eu passei, aliás, eu passei por problemas piores que ele…”.
O tratamento estigmatizante dado ao caso pelo bispo Macedo contribui para que pastores que lutam com transtornos de saúde mental tenham receio de falar sobre o assunto e de buscar ajuda profissional para tratamento. Afinal, se não conseguem superar os problemas somente pela fé, se afastam do padrão estabelecido pelo líder máximo da IURD.
As condições de trabalho na IURD, igreja altamente hierarquizada, são diferentes de pequenas igrejas lideradas por pastores que se dividem entre o trabalho religioso e outras atividades profissionais para sustento financeiro. Todavia, sem deixar de lado essas diferenças, é preciso reconhecer que os pastores adoecem mentalmente e o ambiente laboral religioso está entre os fatores responsáveis pelo adoecimento.
Artigo publicado pela Folha/UOL