“Vou para Hollywood, se Deus quiser”, diz Tânia Maria, 78, cotada ao Oscar por “O Agente Secreto”
- Atriz conquistou público brasileiro e internacional por atuação ao lado de Wagner Moura no novo filme de Kleber Mendonça Filho
- Tânia Maria trabalhou como costureira de roupas finas e de noiva em João Pessoa
Os amantes da cartografia dizem que o mapa do estado do Rio Grande do Norte se assemelha à figura de um elefante. Natal, sua capital litorânea, ficaria nas proximidades das nádegas do animal, enquanto a tromba ilustraria o sertão na divisa com o Ceará. Já nas patas do elefante repousa o Seridó, região conhecida não apenas pelos cenários semiáridos, mas também por suas iguarias gastronômicas, como os queijos de coalho e a carne de sol.
Parelhas ficaria, com certo esforço criativo, no calcanhar do paquiderme. Incrustada no terreno baixo da Depressão Sertaneja sob a sombra do Planalto da Borborema, a cidade, que representa uma das últimas paradas antes do deserto da caatinga profunda, fica distante quatro horas de Natal e já serviu de cenário para a série “Cangaço Novo“, da Amazon Prime Video.
Mas não espere clichês do sertão: a área é coberta por oiticicas e cabreiras que duelam com xiquexiques para impor um verniz verde-escuro ao cinza bronzeado da terra dura.
A viagem do litoral ao Seridó é repleta de atrações. Há o delicioso pastel de Tangará, salgadinho de massa fina e recheio farto, em que se recomenda o tradicional sabor de carne de sol com nata; em Santa Cruz, de longe é possível observar a estátua de Santa Rita de Cássia, uma imponente construção com 56 metros de altura, considerada a maior do mundo dedicada a uma santa católica; e, nas proximidades de Parelhas, há açudes majestosos que alimentam boa parte da região durante os períodos de seca, como Boqueirão e Gargalheiras —este último, cenário de “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.
Tânia Maria virou uma atração tão grande que seu busto pintado passou a estampar um muro com figuras notáveis de Santo Antônio da Cobra —ou simplesmente Cobra— a 20 km de Parelhas, onde mora com a filha, Shyrley Azevedo, e a neta, Jácylla.
Seu nome rivaliza em fama, hoje em dia, com um parque temático local que abriga piscina, tobogãs e 18 esculturas de dinossauros, reflexo da importância da área e dos seus sítios arqueológicos, com pinturas rupestres e fósseis.
Encontramos dona Tânia, como todos ao seu redor a chamam, perto de um desses sítios, na entrada da imponente barragem do Boqueirão, cheia até a borda, motivo de felicidade para a população de Parelhas.
Pouco antes da água, uma estrada de terra exibe o convite para a pousada Vale dos Voadores, empreendimento de um parente com jardins verdes e cabanas aconchegantes no sopé de uma colina rochosa. Estamos a 20 minutos da casa de Tânia. Um local bem diferente do povoado natal da atriz. “Aqui é melhor porque tem pista. Na Cobra, são 18 km de terra”, explica ela, nos guiando na direção de uma mesa de café da manhã com uma farta variedade de bolos.
Em seguida, pega uma das garrafas térmicas com café e explica que já vem adoçada. “É o que bebo. Não tenho diabetes, não tenho nada. Só ansiedade. Aí fico cansada. Bora sentar”, ordena, com simpatia.
Quando estreou em “Bacurau”, Tânia Maria nunca tinha atuado diante das câmeras. Duas palavras foram suficientes para mudar isso.
“Renata Roberta [produtora de figuração do filme] foi lá em casa atrás de figurante. Eu estava costurando e, quando cheguei na sala, falei: ‘Boa noite’. Ela olhou para mim e disse: ‘É da senhora que estamos precisando’. No outro dia, estava filmando”, lembra. “Entrei em ‘Bacurau’ por causa da minha fala.”
A descobridora confirma a gênese da estrela. “Precisei esperar a chuva forte cessar e, a convite da filha e da neta de dona Tânia, entrei na casa dela para um café. A curiosidade dela sobre o funcionamento do filme me chamou a atenção e fiquei magnetizada por sua voz rouca e presença marcante”, explica Roberta, que contratou a atriz amadora imediatamente, fugindo dos protocolos da produção, porém seguindo sua metodologia de pesquisa de elenco. “É sobre a criação de um corpo-coral de atores que, embora não profissionais, carregam em si a vida dos lugares em seus gestos e suas expressões. Ela é baseada no relacionamento com as pessoas dos locais onde filmamos e seus desejos de estar diante de uma câmera”, diz.
E de roupa, ela entende. Tânia Maria costura desde os 15 anos, no entanto começou a vida profissional, em 1973, como orientadora de saúde, depois de fazer um curso na cidade de Assú, a 200 km da Cobra.
Um ano depois, envolveu-se com um homem recém-separado e ficou grávida de Shyrley, mas nunca quis levar a relação adiante. “Foi apenas um caso. Eu tinha 27 anos e queria um filho, não me importava quem seria o pai”, afirma. “Depois que engravidei, não quis mais saber dele.”
Essa mentalidade progressista e independente, porém, não combinava com a Parelhas de meados da década de 1970. Ao descobrir que a funcionária da prefeitura estava grávida, mas sem um casamento tradicional, parte da população começou um abaixo-assinado exigindo sua demissão do posto de saúde da Cobra. “Naquele tempo, ser mãe solteira era um tabu”, confirma.
Depois que uma amiga a avisou do que estava acontecendo pelas suas costas, ela caminhou 18 km, durante a madrugada de uma sexta-feira, para pedir o desligamento diretamente ao prefeito, que insistiu para que ficasse. Não adiantou. “Não queria ser expulsa e passar vergonha”, explica. “Quando foram me expulsar, viram que eu não trabalhava mais lá.”
“Não foi difícil criar uma filha sozinha. Não tinha dinheiro para comprar leite, então ela mamou até os quatro anos. Em João Pessoa, toda casa onde costurava tinha crianças, então sempre lhe davam alimentação”, lembra, sem o menor traço de vitimização.
“Me lasquei todinha me abaixando e levantando umas 15 vezes, mas passei no teste. O rapaz só me disse que eu precisava passar 30 dias sem ficar doente.”
Quando o período de experiência passou, Tânia Maria entrou no banheiro da fábrica, chutou o balde do papel higiênico, deitou-se no chão e deixou a veia artística, movida pelo desespero, tomar conta.
“Como estava chovendo, disse que tinha caído e meti a coluna no vaso sanitário. A segurança me colocou nos braços e me levou para o hospital”, conta ela, sem esconder o sorriso maroto. “Mas não era coluna, era um cisto no útero. Me operaram no mesmo dia. Fiquei três meses me recuperando e, quando fiquei boa, pedi demissão e vim embora para casa”.
Até o início dos anos 1990, passava a semana costurando em João Pessoa; nas sextas-feiras, pegava carona nas carrocerias de caminhões de cimento ou de telha que faziam o percurso de mais de cinco horas até Parelhas. Depois, passou a se dedicar inteiramente, em casa, aos conjuntos de banheiro que ama criar.
Por dia, dona Tânia produz cinco conjuntos de R$ 50, disputados por lojinhas e supermercados da região. “As pessoas procuram pelo produto, não pode faltar”, diz a artesã, sem nenhuma modéstia, e garantindo que a fama no cinema não afetará seu negócio principal. “Não vou aumentar os preços. Aumento as máquinas, mas não os preços. Sou a mesma pessoa, não mudei nada. Mas, se viesse um pouquinho mais de dinheiro, seria bom”.
Depois da participação em “Bacurau”, Tânia Maria nem teve tempo para aproveitar a fama repentina. Em 2020, durante a pandemia, ela se isolou por três meses com a família na pousada onde conversamos e começou a ter ataques cada vez mais fortes de ansiedade.
Não ajudava o fato de fumar 40 cigarros por dia (“no mínimo”), algo que a levou ao hospital depois de uma noite de respiração ofegante e insônia.
Como não havia médico particular atendendo na cidade, os parentes pediram para ela usar seus talentos e “fingir que estava muito mal”, de modo a ser examinada mais rápido. A atuação foi tão convincente que até a família começou a considerar sua internação. “Falei: ‘Você que me pediu para fingir. Não tô mal assim, não!’”, diverte-se a atriz.
Não demorou muito para ela retornar à atuação profissional. Primeiro, em um papel no docudrama “Seu Cavalcanti”, dirigido por Leonardo Lacca, com quem trabalhou em “Bacurau” e uma espécie de “mentor” da atriz. O papel a fez rever seu passado e as decisões de vida que afetaram sua filha —Shyrley só conheceu o pai aos 15 anos e foi reconhecida duas décadas depois. “A mulher que fez essas coisas já morreu”, afirma.
Em seguida, veio “O Agente Secreto”, novo filme de Kleber Mendonça Filho, com Wagner Moura no papel principal. Tânia Maria interpreta Sebastiana, a síndica do prédio que abriga “refugiados”, tanto da ditadura quanto da sociedade da época, inclusive o personagem do astro do cinema brasileiro.
Membros da equipe de produção evitaram revelar que ela dividiria cenas com Moura para não deixá-la nervosa. Mudaram de ideia com medo do susto do encontro —afinal, ela completa 79 anos em janeiro— e avisaram: “Dona Tânia, a senhora vai atuar com Wagner Moura”.
“Quem é esse?”, perguntou, para espanto geral. “A última novela que vi foi ‘Pai Herói’ [1979], com Tony Ramos“, justifica a artesã que virou atriz. “Agora, adoro ele. Que homem bom e generoso”.
Quando finalmente chegou à capital pernambucana, em meados de 2024, o ator baiano encontrou sua colega de set e disse: “Dona Tânia, a senhora não me conhece, mas eu já lhe conhecia”.
“Dona Tânia foi a atriz mais espetacular com quem trabalhei recentemente”, exalta Wagner Moura, que, entre outras, atuou com Kirsten Dunst e Elisabeth Moss nos últimos anos. “Ela é de uma verdade e carisma enormes. É tudo que qualquer ator quer ser. Fora que é uma pessoa linda. Fiquei muito apaixonado e impressionado com ela”.
A naturalidade também vem da personagem, escrita para ela. “Me identifico com tudo da Sebastiana, até quando reclamo do buraco do gato. Aquilo é minha vida real, muitas palavras são minhas. Elas estavam no roteiro, mas eu adaptava. Kleber ria e mandava falar, não reclamava.” Ela tinha uma tática especial para amaciar o diretor: abraçá-lo e dar um “xêro”. “Eu falava: ‘Adoro filmar com você’. Ele ficava sem perna, é tímido demais”.
Mesmo sem grande experiência como atriz, Tânia Maria diz que decora textos com facilidade. “A gente precisa escrever no papel para decorar rápido. Sei que é difícil encontrar uma pessoa de 78 anos que sabe decorar texto e é ativa, meu único problema é que ando meio desequilibrada”, afirma.
Na cena do “vamos mudar esse clima, vou botar uma música”, que já ficou famosa no trailer de “O Agente Secreto”, ela teve dificuldades. “Decorei fácil, mas travei na hora de falar o nome do personagem de Wagner. Tive de repetir umas dez vezes”, diz.
Nas cenas dela, nos cinemas brasileiros ou internacionais, a plateia explode em risos que contrastam com a tensão do longa. Tânia Maria consegue até mesmo roubar a atenção que repousa em Wagner Moura. “Não lembro de ter roubado nenhuma cena”, brinca ela.
Sua interpretação naturalista e desbocada começou a chamar a atenção dos veículos norte-americanos logo depois do Festival de Cannes 2025, em que Mendonça Filho saiu como melhor diretor e Wagner Moura como melhor ator. O nome de Tânia Maria passou a circular até mesmo entre as possíveis candidatas ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, e os pedidos de entrevista precisaram ser controlados.
“Não quero ser famosa. Tenho medo, quero ser apenas eu mesma. Vejo como Wagner Moura sofre”, diz, em tom sério. “Fico com raiva quando me falam que sou famosa. Um dia, pode ser.”
Dona Tânia não está dando ataque de estrelismo. Durante a entrevista, seu telefone toca inúmeras vezes. Em uma ligação, pedem que grave um depoimento sobre folclore regional. Ela recusa. “Só quero falar sobre cinema”.
“Não tenho medo da câmera. É bom demais me ver na tela. Depois disso, comecei a ver filmes. Falo pra Kleber que ‘Bacurau’ é ruim demais. Só gosto da parte em que apareço. Mas já vi ‘O Agente Secreto’ duas vezes e é bom, e não só porque apareço mais”, diz, gargalhando.
Pode ser a dureza da mulher sertaneja falando mais alto, mas essa sinceridade também carrega valentia. Em maio passado, dona Tânia estava animada para sair do Brasil pela primeira vez, a convite do Festival de Cannes, mas não pôde ir porque não conseguiria ficar dez horas dentro de um avião sem fumar. Foi a gota d’água.
Pela primeira vez em 60 anos, decidiu que não iria mais fumar. “Parei de vez. O último cigarro foi em 30 de maio. Eu estava doente, cansada. Quando quero uma coisa, sou determinada”, afirma. “Coloquei adesivos de nicotina. Fiquei tremendo. O primeiro saiu preto. Usei o último quando fui para Brasília encontrar o presidente, e saiu limpinho.”
Ela adorou conhecer Lula. “Uma honra grande, bom demais. Ele perguntou do que eu estava precisando e disse que era de filme para eu ganhar dinheiro. Queriam que pedisse campo de futebol ou asfalto para Parelhas, mas pedi coisa para mim”, diz.
A simplicidade de dona Tânia, no entanto, esbarrou no lado tóxico das redes sociais. “Apareceram comentários chatos, mas qualquer chateação, eu apago”, afirma, inabalada, já com o espírito preparado para ler reações adversas ao filme. “Aceito as críticas negativas, mas ainda não encontrei nenhuma”.
Ela não sabe quem é Brad Pitt, Jennifer Lawrence ou Leonardo DiCaprio, mas está empolgada para mais uma etapa inesperada da sua vida de atriz.
“Já tinha ouvido falar do Oscar, mas não sabia como ia pro Oscar. Pra mim, tanto faz. Não me emociono com nada. Mandando a passagem, embarco na hora”, anima-se ela, que já fez o primeiro passaporte e foi procurada pelos produtores do filme para viajar aos EUA com todos os cuidados, ao lado da neta ou da filha. “Vou pra Hollywood, se Deus quiser”.
- Folha/UOL
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