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Flávio Bolsonaro enfrenta isolamento após carta golpista e operação despiste com fuga para os EUA

A carta golpista que o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado nas eleições para presidente da República, divulgou em suas redes sociais não encontrou eco em seus principais aliados, que preferiram fazer declarações de distanciamento.

fuga-rs-fotos-publicas-258x300 Flávio Bolsonaro enfrenta isolamento após carta golpista e operação despiste com fuga para os EUA

Miami/EUA – 28/10/2026 – POLITICA – Senador Flávio Bolsonaro foge com a família do Brasil e chega em Miami nos EUA, passando pela Argentina, Equador e chegando nos EUA, onde pediu asilo humanitário. Foto: RS/Fotos Públicas

 

Após a operação cinematográfica de fuga e despiste, Flávio divulgou uma carta apresentando-se como “verdadeiro presidente do Brasil”, apesar da derrota para Lula (PT) no domingo (25) por uma margem de 4,4 milhões de votos.

Depois de poucos minutos, ele recuou e optou por “líder do Brasil”, mas manteve uma série de mentiras e distorções sobre o processo eleitoral, com postura semelhante à adotada em 2022 por seu pai, Jair Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe de Estado.

A carta de Flávio nos EUA teve ao menos quatro versões, duas publicadas pelo próprio senador em rede social e duas por aliados próximos da família Bolsonaro —uma das quais chegou a trazer um brasão com a palavra “Brazil”, escrita com z.

SEM APOIO

Contrariando Flávio, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, voltou a afirmar que as eleições de 2026 transcorreram dentro da “mais absoluta normalidade” e que a Justiça Eleitoral garantiu a segurança do processo de votação. Nunes Marques foi indicado ao STF por Jair Bolsonaro e, durante a campanha, provocou desconforto no TSE com decisões favoráveis ao senador do PL. (g1 e Globo)

Donald Trump, por sua vez, evitou reconhecer Flávio Bolsonaro como o verdadeiro vencedor das eleições presidenciais brasileiras. Questionado sobre a declaração do senador, que contesta a vitória de Lula, Trump afirmou que não pretende se envolver na crise política brasileira. “Não vou comentar isso. Nós demos a ele uma autorização para entrar no país. Mas não vou me envolver”, declarou o presidente americano. Apesar de evitar um posicionamento favorável a Flávio, Trump voltou a lançar dúvidas sobre o processo eleitoral brasileiro, sem apresentar provas. Segundo ele, as eleições foram “muito estranhas”. (CNN Brasil)

O senador Rogério Marinho (PL-RN), que coordenou a campanha presidencial, declarou que nem ele nem o partido podem afirmar que houve fraude nas eleições. O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse que “o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”.

A senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura de Jair Bolsonaro, pregou respeito ao resultado das urnas, afirmou que a eleição acabou e que é hora de a direita unir esforços. Partidos que apoiaram Flávio no segundo turno contra Lula também reafirmaram apoio ao pleito e ao respeito democrático.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse ter aconselhado o aliado a não deixar o país. “O conselho que nós demos a ele — os advogados, eu, o (Rogério) Marinho, as pessoas que estavam ali reunidas — foi que ficasse (no Brasil)”, afirmou, ressaltando que não julgava a atitude do senador. Em entrevista ao Estadão, Tarcísio admitiu pela primeira vez a possibilidade de concorrer à Presidência em 2030. “Terminando bem o segundo mandato, obviamente abre uma possibilidade. Mas isso é uma coisa que você avalia em grupo, não sozinho”, disse. Mais tarde, ao tomar conhecimento da carta de Flávio Bolsonaro, o governador soltou uma nota dizendo ser necessário “respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”. (Estadão)

Partidos de todos os matizes políticos se manifestaram na quarta-feira contra a carta de Flávio Bolsonaro. O presidente do União Brasil, Antonio Rueda, divulgou nota à imprensa afirmando que a democracia é “um valor inegociável” para o partido. Líderes de PSD, PSDB e MDB seguiram no mesmo tom, enquanto a esquerda divulgou uma nota conjunta. “O Brasil não é quintal de ninguém, e a vontade soberana do povo brasileiro será respeitada”, diz nota assinada por PT, PC do B, PV, PSB, PSOL, Rede e PDT. (Globo)

O bispo JB Carvalho, líder da Comunidade das Nações, igreja de Brasília frequentada por Flávio Bolsonaro, também repudiou o tom da carta de seu fiel. No Instagram, Carvalho disse que as eleições terminaram e que não há “terceiro turno”. “Vamos viver a vida. Pare de profetizar o caos”, completou. Segundo o Painel, aliados e interlocutores do senador consideram a atitude dele “perigosa”. Coordenador da campanha de Flávio, o senador Rogério Marinho (PL-RN) disse que nem ele nem seu partido podem afirmar que houve fraude na eleição. (Folha)

 

A CARTA

Na primeira e na segunda versão da carta divulgadas por seus aliados, Flávio se dirige “ao povo brasileiro e à comunidade internacional” e se apresenta como “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”.

Depois, Flávio publicou em sua própria conta em rede social uma versão sem a palavra “eleito”, mas mantendo-se como “verdadeiro presidente”. Em seguida, fez uma edição e republicou o conteúdo, adotando a expressão “líder do Brasil”.

“Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula [o ministro do Supremo Cristiano Zanin] permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno”, afirma o texto.

A teoria golpista, sem fundamento ou provas, repete o que dizem bolsonaristas nas redes. Flávio já havia dito no domingo que não reconhecia a vitória do rival porque a Justiça Eleitoral aceitou esticar em duas horas o horário de votação, algo que seu próprio partido também pediu em algumas localidades. Na segunda, porém, antes da fuga do Brasil, havia modulado o discurso, falando em liderar a oposição.

No período da prorrogação da votação, pouco mais de 34 mil votos foram computados, e por fim o PL desistiu de protocolar ação pedindo a nulidade do pleito.

Na carta, Flávio também agradeceu o papel dos presidentes aliados Javier Milei (Argentina) e Donald Trump (Estados Unidos) na sua rocambolesca fuga.

O argentino teria entrado com “a coragem” e o americano, com a acolhida. Nenhum dos dois reconheceu a vitória de Lula e Trump chamou a eleição de fraudulenta, embora tenha se distanciado até aqui da fuga em si, apenas dizendo que irá conceder visto aos Bolsonaros.

O roteiro, que não havia sido encampado pelo seu próprio partido, é típico do bolsonarismo e do trumpismo. O pai de Flávio dizia ter sido roubado no primeiro turno de 2018 e nunca reconheceu a derrota de 2022. Já o americano nega ter perdido para Joe Biden em 2020.

O senador chegou com a família ao Aeroporto Executivo de Miami-Opa Locka às 10h23, no horário de Brasília, após um voo que deixou Porto Iguaçu (Argentina) com escala em Guayaquil (Equador).

Ele foi recebido com serviço VIP na pista, fazendo um desembaraço imigratório rápido e sendo levado com escolta para algum ponto no norte da Flórida, onde se encontraria com o irmão Eduardo, que se refugia desde o ano passado no país de Trump, onde estimulou a campanha tarifária contra o Brasil.

O senador fugiu do Brasil sem cumprir a determinação judicial para entregar seus passaportes nacionais, mas viajou com o documento italiano (ele obteve a cidadania em 2023). Segundo a PF, não é considerado foragido por não haver um pedido de prisão contra ele.

A medida, pedida pela Polícia Federal por risco de fuga, foi determinada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes logo após o anúncio da derrota no domingo, e anunciada no dia seguinte. Aliados do senador dizem que ela é persecutória, mas há divisões acerca do apoio à fuga.

A operação é envolta em mistérios que levam a questionamentos no Brasil e nos três países envolvidos, todos governados por aliados dos Bolsonaros. Apenas o equatoriano Daniel Noboa ficou fora do agradecimento de Flávio.

A opacidade começa com o avião usado no voo, um Gulfstream G400, matrícula LV-JQW, operado pela empresa argentina Baires Fly —envolvida em um escândalo de corrupção que derrubou em 2025 um político próximo de Milei, aliado tão próximo dos Bolsonaros que estrelou a convenção que lançou Flávio.

Segundo o monitor Flightradar24, o aparelho chegou a Porto Iguaçu (Argentina) na noite de segunda (26), com o nome de Flávio na lista de passageiros de um voo marcado para as 22h14. A tripulação ficou retida e não houve autorização para o plano de rota, segundo autoridades locais.

Enquanto isso, no Brasil, havia versões conflitantes acerca do que ocorrera. Aliados de Flávio diziam, sob reserva, que ele já estava a caminho dos Estados Unidos e, em alguns casos, até pousado na Flórida. A rota ora era pela Argentina, ora por roteiros fantasiosos que incluíam a Venezuela ora sob domínio de Trump ou uma operação secreta da CIA.

Ao fim, como ensina em suas memórias Tony Mendez, o homem que tirou diplomatas americanos do Irã na Revolução Islâmica de 1979, retratada no vencedor do Oscar “Argo”, a solução mais eficaz parece ter sido algo mais simples —mas nem por isso menos espetaculosa.

A Direção Nacional de Migrações da Argentina havia negado na manhã de terça ter recebido Flávio e família.

À noite, o órgão disse que os Bolsonaros haviam ingressado no país às 22h50. O avião deixou Porto Iguaçu às 0h21 da quarta e demorou 5h25min para chegar a Guayaquil, contornando o Brasil e evitando assim seu espaço aéreo e uma improvável interceptação.

Quatro horas depois, já com a notícia no ar, o Gulfstream decolou rumo a Miami. Alguns dos aliados do senador que haviam relatado sua ida aos EUA sustentavam que ela havia ocorrido na terça, mas o desembarque os provou ou errados, ou mal-intencionados.

A divulgação de informações falsas foi encampada principalmente por pessoas próximas a Eduardo, reforçando a suspeita de uma ação para despistar e permitir a conclusão da fuga.

Segundo a PF, não é feita checagem de documentos de brasileiros que saem por terra rumo à Argentina, mas o órgão estava mobilizado desde a manhã para rastrear uma eventual passagem de Flávio. Se havia risco de fuga e a imprensa argentina havia dito que o avião esperava o senador, o procedimento na fronteira merecerá escrutínio.

Uma TV argentina disse, por sua vez, que Flávio e família já estavam em Porto Iguaçu durante a terça, escondidos, o que leva o questionamento direto à mesa do órgão de imigração do governo Milei acerca de como foi feito o registro dos Bolsonaros.

A desinformação tomou ares de guerra na terça. O próprio Flávio havia dito na véspera, após ser intimado pela PF a entregar os passaportes, que iria dar os documentos e nunca deixar o Brasil. Seu irmão Eduardo ironizou a suspeita de fuga, dizendo que o empresário Elon Musk havia enviado “um foguete” para pegar o senador.

Nos EUA, o Departamento de Estado foi mais claro, dizendo que iria dar o visto a Flávio e família, e não o asilo político ventilado por aliados bolsonaristas. Um de seus operadores nos EUA, o jornalista Paulo Figueiredo, reclamou de “notícias falsas” —uma especialidade justamente de seu grupo político.

 

  • Com CNN Brasil, G1. Estadão, Globo e Folha/UOL
  • Foto/capa: Pablo Jacob/Governo do Estado de SP

 

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