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83% das crianças paraibanas consomem alimentos ultraprocessados

A Paraíba ocupa a terceira posição no Nordeste em consumo de ultraprocessados entre adultos, com índice de 65%, segundo dados de fevereiro de 2026 do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), do Ministério da Saúde. Entre crianças, o consumo chega a 83%, o nono maior índice do país. Os números vêm de atendimentos registrados no SUS e ajudam a dimensionar o espaço que esses produtos ocupam na alimentação das pessoas.

É o que diz matéria publicada neste domingo, 26, e assinada pelo jornalista Joel Cavalcanti, do Jornal A União. Leia, a seguir, a matéria completa:

Ultraprocessados são alimentos produzidos em escala industrial, com formulações que combinam ingredientes extraídos ou modificados, além de aditivos para sabor, cor e conservação. Entram nessa lista itens como biscoitos, macarrão instantâneo, refrigerantes e bolos prontos. O consumo frequente já é associado a dietas com excesso de açúcar, gordura e sódio. Um relatório recente do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) adiciona outro elemento a esse debate: a presença de resíduos de agrotóxicos nos ultraprocessados.

O terceiro volume do estudo “Tem veneno nesse pacote” analisou 24 alimentos de grande consumo no país. Metade deles apresentou algum tipo de resíduo de pesticidas. O glifosato apareceu com mais frequência, detectado em sete produtos. Classificado pela Organização Mundial da Saúde como “provavelmente cancerígeno”, o herbicida é um dos mais utilizados na agricultura mundial. Mas como esses produtos industrializados passaram a carregar resíduos de agrotóxicos?

A farmacêutica e bioquímica Shirleyde Alves dos Santos, mestre em Saúde Pública, explica que a contaminação começa ainda no campo. “Quando a gente fala de agrotóxicos, muitas pessoas pensam nas hortaliças e frutas. Mas tudo que é produzido no campo com uso dessas substâncias chega também à indústria”, afirma. Ela cita dois exemplos centrais: trigo e milho. “O trigo está em grande parte dos alimentos industrializados. O milho também, mesmo quando não aparece diretamente. O açúcar de milho, o amido, tudo isso entra na composição de muitos produtos.”

Esse percurso ajuda a entender por que os resíduos aparecem mesmo em alimentos que não são consumidos in natura. A cadeia produtiva incorpora matérias-primas que passaram por lavouras onde há uso intensivo de defensivos agrícolas. O resultado chega às prateleiras em diferentes formas. Entre os produtos analisados que apresentaram maior número de resíduos estão os biscoitos maisena Marilan e Triunfo, com quatro tipos de agrotóxicos cada. Em seguida aparecem macarrões instantâneos das marcas Nissin e Renata e o bolo pronto sabor chocolate Ana Maria.

Um dos destaques do levantamento aparece em produtos que se apresentam como alternativas mais saudáveis. O Idec identificou resíduos de agrotóxicos em hambúrgueres e empanados à base de plantas de marcas como Sadia e Seara, com três substâncias detectadas. A categoria, associada a um apelo ambiental e nutricional, também é composta por ultraprocessados. O relatório aponta que, apesar das embalagens destacarem características como ausência de colesterol ou uso de ingredientes naturais, esses itens seguem a lógica industrial e podem conter resíduos provenientes de defensivos agrícolas.

A contradição aparece no discurso de mercado e na composição dos produtos. Shirleyde observa que a variedade nas prateleiras pode dar a impressão de escolha mais ampla do que realmente existe. “A gente tem uma falsa diversidade. Parece que há muitas opções, inclusive saudáveis, mas a base desses alimentos é praticamente a mesma”, afirma. “As pessoas migraram das feiras para os supermercados e passaram a consumir mais produtos industrializados.”

A discussão sobre resíduos de agrotóxicos em ultraprocessados também expõe limites na regulação sanitária. Hoje, segundo o Idec, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não possui normas específicas que estabeleçam limites de resíduos para esse tipo de produto. O monitoramento ocorre por meio do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), que acompanha apenas alimentos de origem vegetal in natura.

A discussão sobre controle e políticas públicas atravessa esse tema. Shirleyde acompanha o debate há 15 anos e cita a necessidade de incentivos a práticas agrícolas com menor uso dessas substâncias. “A gente precisa de políticas públicas para mudar esse modelo. Existem alternativas, como a produção agroecológica, mas elas precisam de apoio.”

No campo, os efeitos da exposição são mais imediatos. Trabalhadores lidam diretamente com a aplicação dos produtos, muitas vezes sem proteção adequada. Nas cidades, o contato ocorre de forma indireta. “Quem está no campo tem uma exposição mais intensa. Quem está na cidade consome esses resíduos ao longo da vida”, diz.

A circulação de alimentos entre campo, indústria e consumo final conecta essas realidades, deixando a discussão sobre ultraprocessados ser apenas nutricional para envolver o modelo de produção agrícola. “Quando a gente fala de agrotóxicos, a gente está falando de uma disputa que envolve o meio ambiente e a saúde das pessoas. E, principalmente, de quem está produzindo esses alimentos”, afirma Shirleyde.

Ela aponta que já existem alternativas em funcionamento. “A gente tem opções no campo e no consumo. Existem locais de comercialização onde você encontra produtos sem agrotóxicos”. Para a pesquisadora, o desafio está em ampliar o acesso e a visibilidade desses produtores. “É preciso mostrar que é possível”.

“Quando você entende o que está por trás do alimento, fica difícil continuar consumindo do mesmo jeito”

Diante dos alertas sobre a presença de resíduos de agrotóxicos em alimentos ultraprocessados, a mudança de hábitos alimentares passa a ser, para muitos consumidores, a única opção a ser seguida. Essa transição envolve acesso à informação de como funciona a indústria alimentícia e o agronegócio. A adoção de escolhas cotidianas requer, muitas vezes, uma revisão profunda da relação com a comida. É nesse contexto que a experiência de Maria Madalena de Medeiros ajuda a traduzir como esse processo pode acontecer.

Engenheira agrícola e assessora técnica do Centro de Ação Cultural (Centrac), Madalena conta que sua decisão de evitar ultraprocessados e priorizar alimentos sem agrotóxicos foi construída ao longo do tempo, impulsionada tanto pela formação profissional quanto pela vivência pessoal. “Eu venho de uma família camponesa que sempre buscou comer melhor, mesmo diante das dificuldades. Depois, minha trajetória na agroecologia só reforçou esse caminho”, explica.

Hoje, o trabalho dela está diretamente ligado à promoção de sistemas alimentares mais saudáveis e sustentáveis, incluindo o fortalecimento de feiras agroecológicas na Paraíba. Em Campina Grande, por exemplo, ela acompanha de perto uma feira realizada semanalmente no bairro do Catolé, nas primeiras horas da manhã, como parte das ações do Centrac voltadas à produção da chamada “comida de verdade”.

“Eu sou uma pessoa das Ciências Agrárias que nunca usei, por exemplo, agrotóxicos. O controle agroecológico de pragas e doenças é possível e dá excelentes resultados, fazendo bem pra quem cultiva, pra quem consome e pro meio ambiente”, destaca Madalena. “Quando me tornei adulta, minha primeira experiência profissional foi com povos indígenas, e desde então eu tenho uma trajetória de defender a produção da comida de verdade”.

Mesmo reconhecendo que, em alguns momentos, chegou a consumir produtos como refrigerantes, ela afirma que o conhecimento sobre os impactos desses alimentos foi determinante para mudar hábitos. “Hoje eu não tomo, porque é uma questão de você conhecer os danos que isso causa para saúde. Outras coisas muito processadas nunca entraram na minha casa”, diz.

Para quem deseja seguir o mesmo caminho, Madalena aponta que a informação é o principal ponto de partida. “A gente tem de ler mais, ter formação nessa área. Existem materiais que mostram os danos causados pelos produtos processados, e quando você entende que tem substâncias potencialmente cancerígenas presentes nesses alimentos, fica difícil continuar consumindo”, afirma.

Na avaliação dela, a escolha por evitar ultraprocessados está diretamente ligada à adoção de modos de vida mais saudáveis e sustentáveis. Mais do que uma mudança individual, trata-se de uma decisão consciente sobre o que se consome e os impactos dessa escolha. “A gente precisa conhecer melhor e fazer uma opção”, conclui Madalena.

 

  • Texto de Joel Cavalcanti para o Jornal A União deste domingo, 26/4
  • Foto: VGIO Studios/Pexels   

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