domingo, fevereiro 8, 2026
Manchete

Campanha eleitoral: entidades paraibanas se unem contra a desinformação

Em um cenário marcado pela polarização política e pela circulação acelerada de conteúdos nas redes sociais, o combate à desinformação consolida-se como um dos principais desafios para a democracia no ano eleitoral. Na Paraíba, iniciativas institucionais e acadêmicas buscam enfrentar a propagação de notícias falsas (fake news) e a manipulação de imagens e vozes, conhecidas como “deepfake” —, com destaque para a atuação da Rede Paraibana de Combate à Desinformação, coordenada pelo Laboratório Alumia, vinculado ao Centro de Comunicação, Turismo e Artes (CCTA) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Criada para integrar diferentes setores da sociedade, a rede reúne pesquisadores, profissionais da Comunicação e representantes da sociedade civil em torno de um objetivo comum: proteger o direito à informação de qualidade e fortalecer a participação cidadã consciente, especialmente durante o período eleitoral. Dentro desse conjunto de iniciativas, o Alumia desenvolve o projeto Deepfake e Eleições 2026: educação midiática no enfrentamento à desinformação — linha estratégica do laboratório voltada à prevenção dos impactos da inteligência artificial (IA) no processo democrático.

A atuação do Alumia está estruturada a partir de quatro eixos complementares: checagem de fatos, desenvolvimento de tecnologias com uso de inteligência artificial, educação midiática e pesquisa acadêmica. A integração dessas frentes permite uma abordagem ampla do fenômeno da desinformação, que ultrapassa a simples identificação de conteúdos falsos. Na área de checagem de fatos, o foco está na verificação sistemática de informações que circulam com grande alcance, sobretudo nas plataformas digitais. Já no campo tecnológico, o laboratório desenvolve ferramentas baseadas em IA capazes de auxiliar na detecção de padrões de desinformação, análise de redes de disseminação e identificação de conteúdos manipulados.

A educação midiática, por sua vez, busca capacitar estudantes, professores e a população em geral para o consumo crítico da informação, promovendo o entendimento sobre como funcionam os fluxos informacionais e os mecanismos de influência no ambiente digital. Riscos à democracia O avanço da inteligência artificial trouxe novos desafios ao enfrentamento da desinformação, sobretudo com a disseminação de conteúdos hiper-realistas. A professora e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa e Extensão Lavid/UFPB e do Laboratório Alumia, Kellyanne Alves, alerta que a disseminação de deepfakes representa uma ameaça direta à democracia e à legitimidade das instituições. Segundo a pesquisadora, essas tecnologias podem interferir nas decisões dos eleitores, manipular a opinião pública, estimular a polarização social e gerar desconfiança quanto à lisura do processo eleitoral, além de favorecer a criação de narrativas falsas capazes de distorcer informações reais e comprometer reputações.

“Na era da inteligência artificial, vivenciamos um cenário cada vez mais preocupante no campo da desinformação visual. As deepfakes podem causar danos graves à democracia ao interferirem nas decisões dos eleitores, manipularem a opinião pública e gerarem desconfiança sobre a lisura do processo eleitoral”, afirma. Ela destaca, ainda, que os aplicativos de criação de deepfakes estão cada vez mais acessíveis e de baixo custo, o que amplia o potencial de disseminação desse tipo de conteúdo, especialmente em períodos eleitorais.

Arquitetura das plataformas

Para o presidente da Associação Brasileira de Agências Digitais da Paraíba (Abradi-PB), Alek Maracajá, a rápida disseminação de conteúdos falsos é impulsionada pela arquitetura das plataformas, pelo comportamento humano, por incentivos políticos e pelo fortalecimento das bolhas ideológicas. Segundo ele, os algoritmos tendem a entregar aos usuários conteúdos semelhantes aos que já consomem, criando ambientes fechados de opinião nos quais são compartilhados não pela veracidade, mas pela afinidade ideológica.

“As bolhas ideológicas transformaram a eleição numa disputa entre realidades paralelas. Cada grupo passa a acreditar e espalhar apenas a versão que reforça sua própria visão de mundo, mesmo que seja falsa. Isso enfraquece a confiança nas instituições e transforma a eleição numa guerra de percepções, não de propostas”, aponta.

Maracajá acrescenta que a popularização de deepfakes, vozes sintéticas e vídeos gerados por IA tornou a desinformação tecnicamente semelhante à informação real. “O problema central não é mais a mentira, é a dificuldade estrutural de distinguir o que é real do que é sintético no ambiente digital. Além disso, a escala é inédita: uma única pessoa consegue produzir milhares de peças de desinformação em minutos. Isso torna o modelo tradicional de checagem insuficiente e desloca o enfrentamento para um nível sistêmico, que exige detecção em tempo real, responsabilização das plataformas e investimento contínuo em educação digital”, afirma.

Desafios legais

Na avaliação da advogada especialista em Direito Eleitoral Laura Veras, o principal obstáculo jurídico está na velocidade com que conteúdos falsos espalham-se, dificultando respostas eficazes da Justiça Eleitoral. “Mesmo quando a Justiça determina a retirada de uma postagem falsa, esse conteúdo já está circulando em outros aplicativos, passando de celular em celular. Com as deepfakes, a situação se agrava ainda mais, porque são vídeos e áudios que simulam falas que a pessoa nunca disse. O combate, hoje, é muito mais difícil do que era no passado”, analisa.

Ela ressalta que o enfrentamento da desinformação não se confunde com censura, mas com a responsabilização de práticas criminosas que violam direitos e comprometem a integridade do processo eleitoral. “Combater fake news não é antagonizar a liberdade de expressão. Uma coisa é emitir uma opinião; outra, completamente diferente, é espalhar um fato que não aconteceu. Quando alguém propaga discurso de ódio ou divulga informações falsas com o objetivo de difamar ou macular a honra de um candidato, isso deixa de ser opinião e passa a ser crime. Essas coisas precisam ser diferenciadas com bom senso”, adverte.

Proteção

Para a pesquisadora Kellyanne Alves, o papel do cidadão é fundamental no enfrentamento da desinformação. Ela orienta atenção redobrada a conteúdos sensíveis ou alarmistas, verificação da fonte, comparação com veículos confiáveis e busca por checagens independentes. Entre os sinais de alerta, estão falhas de sincronização labial, movimentos artificiais, alterações estranhas de voz, inconsistências de luz e sombra, além da ausência ou confusão de metadados — embora esses também possam ser manipulados.

“A verificação precisa ser ampla, combinando análise visual, checagem técnica e confirmação com fontes confiáveis”, detalha.

Ações integradas

Diante desse contexto, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) intensificou a vigilância sobre o uso da IA nas campanhas. Em 2024, a Corte regulamentou a utilização dessas tecnologias na propaganda eleitoral, proibindo deepfakes e determinando a rotulagem obrigatória de conteúdos produzidos com apoio de inteligência artificial. Entre as sanções previstas, estão a cassação de registro ou mandato e a apuração de responsabilidades. Em âmbito nacional, a Justiça Eleitoral mantém um Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação, instituído pela Portaria no 510/2021, que reúne ações de monitoramento, parcerias institucionais e iniciativas educativas de forma contínua, e não apenas em períodos eleitorais. Na Paraíba, representantes da Rede Paraibana de Combate à Desinformação também foram recebidos pelo Ministério Público Federal (MPF) e pelo Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) para discutir estratégias conjuntas de prevenção, monitoramento e educação midiática voltadas às Eleições 2026. O TRE-PB definiu o combate às fake news como tema prioritário de sua agenda institucional em 2026, com a ampliação de ações educativas, campanhas informativas e estratégias de prevenção ao longo do ano eleitoral.

 

  • Texto de Eliz Santos para o Jornal A União deste domingo, 8/2
  • Foto: Ron Lach/Pexels

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