ColunaGisa Veiga

A estupidez humana

Toda vez que alguém cita uma obra que parece interessante, vou atrás, pesquisar. Pois bem: um leitor do site da Folha de S.Paulo, ao comentar sobre a matéria “CNI vai propor a pré-candidatos fim de ganho real para aposentadorias e outras medidas na área fiscal”, disparou: “Quando vejo a classe média, o trabalhador apoiando estes caras, nunca foi tão acertada a obra As Leis Fundamentais da Estupidez”, de Carlo Cipolla. Eu acrescento que a estupidez, nesse caso, não é só do lado dos insensíveis industriais, mas dos trabalhadores e aposentados eleitores dos pré-candidatos que adotarem essa proposta em seus programas de governo.

Antes que pensem que é uma obra atual, de esquerda, devo esclarecer que esse livro é um clássico do século XX, mas acredito (porque ainda não li, mas pretendo) que muita coisa deve se aplicar aos dias atuais, onde a estupidez humana, em vários sentidos, tem crescido assustadoramente.

Fui pesquisar na Amazon, onde costumo comprar meus livros. Lá estava uma apresentação convidativa: “As cinco leis que confirmam seu maior medo: pessoas estúpidas mandam no mundo! Desde tempos imemoriais, uma poderosa força do mal vem prejudicando o bem-estar e a felicidade dos homens. Ela é mais poderosa que a milícia, o tráfico de drogas ou o exército. Seus efeitos são catastróficos e globais. Ela se encontra em salas de reunião e bares de todo o mundo. Essa força gigantesca é a estupidez humana”.

A proposta da Confederação Nacional da Indústria aos pré-candidatos a presidente da República é no sentido de que o governo eleito reajuste aposentadorias apenas pela inflação, sem ganho real, ou altere a regra de ganho real do salário mínimo, para que seja corrigido somente pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor). É que, quando o mínimo é reajustado acima da inflação, benefícios do INSS equivalentes ao piso, como aposentadorias, pensões e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), também têm o ganho real.

A proposta é ainda mais imoral: sugere a desvinculação dos pisos constitucionais de saúde e educação, que deixariam de ter investimentos com percentual mínimo definido, incidente sobre a Receita Corrente Líquida (RCL). Ou seja, sempre sufocando os mais necessitados. Com que objetivo?

O documento é de uma estupidez colossal. Mais do que isso: de uma crueldade desavergonhada, escancarada, imoral. Costumo dizer que, há algumas décadas, as pessoas tinham vergonha de expor seu lado estúpido e cruel. Agora, não. Esse pessoal está na moda. Quanto mais estúpidos, mais arrogantes e mais perversos, mais likes recebem em seus perfis nas redes sociais.

Curiosamente, a matéria da Folha só ganhou comentários detonando a proposta. Que bom! Diz outro leitor: “A decadente burguesia industrial continua saudosa do escravismo, [quer] extrair até a última gota de sangue dos pobres para cumprir seu destino zumbi; perdeu o bonde da história pela incapacidade de construir um projeto nacional que retroalimentasse sua existência, sem gordura, quer se alimentar da carne alheia”. E mais outro: “Somente pessoas realmente desprezíveis, insanas e desumanas poderiam propor isso. Quando aposentadas, as pessoas precisam de mais assistência devido os gastos com medicamentos, por exemplo. Estes seres desumanos propõem isso sabendo que 62% dos aposentados do INSS recebem apenas um salário mínimo”.

O detalhe: a proposta foi dirigida aos candidatos da direita. Algum pudor os líderes industriais brasileiros tiveram ao poupar o presidente Lula, um ex-operário, conhecedor da realidade das classes menos favorecidas.

Voltando ao livro: o que mais me chamou a atenção na apresentação da Amazon foi: “Mais relevante do que nunca, este pequeno livro hilário vai ajudá-lo a enfrentar os eventos políticos mais desconcertantes, colegas de trabalho irracionais e o jantar de Natal com os parentes por meio das regras de ouro do primeiro e único modelo econômico da estupidez”.

Preciso encomendar já o meu exemplar.

 

Por Gisa Veiga

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