segunda-feira, fevereiro 2, 2026
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Condições deploráveis e silêncio institucional: o drama de um brasileiro sob custódia do ICE

A detenção do brasileiro Matheus Silveira durante uma entrevista para obtenção do green card, nos Estados Unidos, expõe mais do que um caso isolado de rigor migratório. Revela um sistema que opera no limite da transparência e, segundo relatos da família, em condições que ferem a dignidade humana.

Preso em 24 de novembro de 2025, em San Diego, justamente na etapa final do processo de regularização migratória, Matheus passou dias sem que familiares ou advogados soubessem seu paradeiro. Transferências sucessivas entre centros de detenção, ausência de informações oficiais e a desativação repentina dos canais de comunicação contribuíram para um cenário de angústia e insegurança.

A esposa, Hannah Silveira, americana e ex-integrante do Exército dos EUA, relata que só conseguiu contato com o marido após três dias. Segundo ela, Matheus foi pressionado a assinar documentos autorizando transferências enquanto seu advogado estava indisponível por conta de um feriado federal. O destino final, ao contrário do que teria sido informado, foi uma unidade distante, descrita como insalubre e superlotada.

O relato das condições enfrentadas pelo brasileiro é perturbador: alimentação insuficiente, perda de peso, cela projetada para 16 pessoas abrigando muito mais, e períodos em que precisou dormir no chão. Situações que, segundo Hannah, não apenas violam padrões mínimos de custódia, mas colaboram para a desumanização dos detidos.

Há também um impasse jurídico e humanitário. Embora a saída voluntária de Matheus tenha sido autorizada por um tribunal — o que, em tese, lhe garantiria o direito de retornar ao Brasil em voo comercial —, a família teme que ele seja submetido a um voo de deportação, prática comum em casos sob custódia do ICE. O consulado brasileiro em Los Angeles foi acionado, mas até agora não há garantias concretas.

O caso ganha contornos ainda mais simbólicos quando se observa quem é Hannah Silveira. Veterana do Exército americano, ela afirma viver o dilema de ter que escolher entre o país que serviu e o marido com quem se casou em 2024. A decisão de deixar os Estados Unidos e recomeçar a vida no Brasil, mesmo sem validação profissional de sua formação em Direito, reflete a perda de confiança em um sistema que, segundo ela, falhou em protegê-los.

A classificação de Matheus como “criminoso” em nota do Departamento de Segurança Interna também é alvo de críticas da família, que afirma que ele não possui antecedentes criminais. O visto de estudante venceu em 2023, durante a pandemia, e o pedido de residência foi protocolado no ano seguinte, após o casamento.

Enquanto isso, o silêncio do ICE persiste. Questionado desde a semana passada, o órgão não respondeu aos pedidos de esclarecimento. O que fica é a sensação de que, para além da legalidade estrita, há uma distância crescente entre o discurso institucional e a realidade vivida por quem está do outro lado das grades.

Mais do que um debate sobre imigração, o caso de Matheus Silveira escancara a fragilidade dos direitos humanos quando a burocracia se impõe sem rosto, sem resposta e sem empatia.

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