Relatos de bastidores evidenciam que as Polícias Militares estavam conectadas com o golpe frustrado de Bolsonaro

Pelos fatos narrados e que percorrem as redes sociais, atribuídos a Fernando Horta, deputado petista, o Brasil esteve na iminência de um golpe concebido pelo capitão Bravata.

Golpe premeditado e orquestrado por quem tem histórico de sedição e que teria como estopim o dia da Independência, uma associação com a data que embevece uma parcela da sociedade brasileira fascinada por discursos belicosos, de conteúdo autoritário e discricionário, prometendo privilégios que fizeram a festa de nazistas e fascistas, em tempos não distantes assim.

Depois do dia 7, a quem serve o coronel?

A senha para o golpe seria o discurso inflamado de um incendiário encantado com o papel de salvador de uma nação que sequer fala mais o seu idioma pátrio e vai para as manifestações em apoio a sua pessoa com dizeres em inglês.

O golpe fracassou por interferência e ingerência de integrantes de instituições que fizeram o bonde do Poder voltar aos trilhos e a normalidade depois de peitarem alguns chefes militares que perceberam a tempo o abismo para onde caminhavam.

Porém, o que permanece é o clima de insegurança institucional e a desconfiança, que a trama abortada plantou, ao revelar o caráter conspiratório de instituições militares estaduais reconhecidamente atreladas ao fascínio que a seita bolsonarista incutiu nessas corporações.

Pelo relato, todas, mas todas as Polícias Militares estavam cientes do golpe em curso e aguardavam apenas o desfecho da pantomima ensaiada em Brasília e São Paulo para aderirem ao golpe do capitão e varrerem do mapa instituições como o STF e a autoridade de governadores, que não compactuam ideologicamente com os conceitos políticos do capitão.

Essa revelação de Fernando Horta no seu twithe não foi desmentida pelos protagonistas da resistência da madrugada do sábado (6) com destaque para o ministro Luiz Fux, presidente do STF, e seu colega de toga Alexandre de Morais, um dos alvos dos ataques do celerado capitão.

O que fica claro no relato é que havia uma conexão entre as policias militares para entrar em ação caso o golpe tivesse o resultado esperado e o desvairado capitão assumisse o comando do país sem ter que prestar mais obediência a Constituição.

Ele faz mira na Democracia

É de se indagar como ficaria o governador da Paraíba João Azevedo nesse cenário de desrespeito ao estado de direito democrático, com a polícia estadual engajada no movimento golpista que teria derrubado a democracia.

Que Bolsonaro armou o golpe não há dúvidas pelo discurso inflamado, desrespeitoso e ameaçador ao usar uma minúscula parcela da população brasileira como sendo o povo que apoiava as suas pretensões autoritárias.

Que se acovardou ficou claro também comprovando o caráter solerte desse individuo que chegou ao poder conduzido pelo ódio e pelo fanatismo.

O que se precisa apurar, agora, seria a participação da Policia Militar nessa trama já que além de comandante geral o coronel Euler também é presidente do Conselho de Comandantes Gerais do Brasil que, pela subordinação as Forças Armadas, não pode ignorar tamanho atentado ao Estado de Direito Democrático e aos valores fundamentais da República.

O fato em si é muito grave e revelaria a fragilidade dos governadores à frente de corporações militares ideologicamente alinhadas ao golpista frustrado, mas que continua no Poder tramando contra as instituições e contra a Democracia na calada da noite.

Os governadores, principalmente os governadores contrários a Bolsonaro, devem reavaliar a lealdade e fidelidade de seus comandantes, abaladas pelos relatos de bastidores, contando detalhes da trama urdida para o Dia Sete, onde e quando as corporações estavam prontas para aderir ao golpe.

Não deu certo dessa vez e o capitão borrou as calças, 24 horas depois de desacatar Deus e o mundo inflamado pelo alarido dos fanáticos que invadiram as ruas do Brasil, dispostos trucida a democracia e as instituições nacionais.

O caráter covarde desses líderes de fancaria pode ser medido também pela desabalada carreira que deu o trovejante Zé Trovão, agitador de caminhoneiros, localizado em um hotel na cidade do México, depois que Alexandre de Morais decretou sua prisão.

Bolsonaro e os filhos descobriram nesse Sete de Setembro o tamanho do seu prestigio e tiveram a certeza de que haverá eleições em 2022, e quem tiver voto será o presidente.

Agora sobre o comandante geral, com a palavra o governador.

Transcrevemos abaixo o texto de Fernando Horta relatando os bastidores da Independência:

Olha o que o Fernando horta relata

Tuítes do Fernando Horta – fala que escapamos de uma imensa armadilha no dia 7 graças à presença surpreendente de Luiz Fux – e como essas tentativas irão continuar.
Segue:

Os protestos convocados por Jair Bolsonaro serviram para mobilizar a classe política para o impeachment. Bolsonaro se expôs sem filtro ao país, dissipando qualquer dúvida sobre suas intenções golpistas e messiânicas. Na tarde de 7 de setembro, as redações já operavam incrédulas diante do mergulho suicida de um presidente disposto a tudo.

Mas os acontecimentos foram mais complexos do que isto. Houve uma tentativa clássica de golpe frustrada pela Suprema Corte em madrugada de altíssima tensão.

Aos fatos e perguntas prévias.

O que teria dado errado para que Bolsonaro não concretizasse seu tão sonhado golpe? O que efetivamente aconteceu para que os planos golpistas fossem frustrados? Seria apenas um erro de cálculo de Bolsonaro? Seria o fato de o Brasil ter “instituições fortes”?

É consenso que o que ocorreu no dia 7 de setembro foi uma tentativa de golpe. É em função desta fatalidade que jornais e partidos enunciaram o “fim” de Bolsonaro – a tentativa fracassada, no entanto, não freou nem freará o ex-capitão.

Esse problema é de Arthur Lira.

Para entender o que de fato ocorreu, a rigor, é preciso olhar para a noite de 6 de setembro. O que se sabe até aqui permite ligar alguns pontos.

Desde o início da semana, os hotéis de Brasília foram sendo tomados – especialmente os mais baratos. Isso indicou o deslocamento antecipado de número razoável de pessoas com alguma capacidade financeira – ou contempladas com algum financiamento.

No dia 6, quase todos os hotéis mais baratos de Brasília estavam lotados. Esse movimento não passou despercebido pelo STF e por todo o aparato de inteligência por ele montado – já que PF e a ABIN foram sequestradas por Bolsonaro.

A partir das 12h do dia 6, a PM do Distrito Federal iniciou os planos de isolamento da região central da cidade (a Esplanada dos Ministérios) como parte do plano de segurança que é imposto compulsoriamente em dia de manifestações.

Nota: Brasília, sabemos, é uma cidade planejada. E da forma como foi planejada, o ‘fechamento’ à entrada do povo nas fachadas de poder é das tarefas mais fáceis e elementares (apesar de ser planejada por um comunista, essa é uma característica urbana de Brasília propícia a ditadores – basta que a PM coloque barreiras para que o povo seja excluído do protagonismo social).

Por volta das 18h, numa ação claramente planejada em moldes militares, bolsonaristas resolveram “testar a água”. Um grupo de cerca de 600 pessoas passou a retirar as barreiras e abrir espaço para que os grandes caminhões, que já estavam na cidade, rompessem o bloqueio.

Esse “destacamento avançado”, com missão de reconhecimento, foi abrindo espaço sem a resistência da PM do Distrito Federal – uma das polícias mais bolsonaristas do país.

Do lado ‘de cima’, o governador do DF, Ibaneis Rocha Junior (MDB) – bolsonarista e supostamente envolvido com as ilegalidades do Ministério da Saúde juntamente com a Precisa e Ricardo Barros – convenientemente não estava presente no DF.

Ou seja: estava tudo armado para uma “pequena” indisciplina da PM de Brasília, pretexto para que se incendiasse o país inteiro. Tudo passaria como uma azarada “falta de ordenamento” em função da ausência do governador.
Brasília, pela manhã, daria o tom do golpe.

Caso as mobilizações prometidas em número chegassem a Brasília, Bolsonaro faria da Paulista apenas seu palco de completo sucesso. O presidente contava com pelo menos um milhão de pessoas em Brasília e, com isso, a pressão sobre as outras polícias dos Estados seria insustentável.

Para entender o que deu errado, é preciso voltar novamente à madrugada do dia 6.

Percebendo a fúria com que os bolsonaristas progrediam destruindo as barreiras na esplanada, seguidos da complacência inicial da PM, vários atores políticos – como o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) e o jornalista Ricardo Noblat – passaram a ligar incessantemente para o governador Ibaneis, e a usar as redes sociais para denunciar o estopim do golpe.

Essa “grita” inicial chegou ao presidente do Supremo, Luiz Fux, que, com a corte em uníssono, entrou em contato direto com a PM do DF exigindo providências.

A resposta inicial da PM foi protocolar. O STF não é a autoridade imediata a quem a PM seria obrigada a responder.

A Constituição, por sua vez, diz que as PM’s estão subordinadas ao Exército.

Eis o ‘golpe de mestre’ do STF.

Fux ligou direto para os comandantes militares, ainda durante a madrugada, avisando que caso as PM’s seguissem o comportamento leniente, ele (Fux) chamaria a GLO e convocaria as Forças Armadas para deter os manifestantes.

O que o STF fez foi adiantar uma tomada de decisão do Exército Brasileiro. As Forças Armadas esperavam primeiro a mobilização popular prometida, para então apoiarem o levante. Estavam naquela madrugada, portanto, aguardando. O STF, contudo, exigiu uma posição imediata do Exército.

Do ponto de vista do STF, a ação era simples. Negasse o exército a ordem de Fux e o golpe estava consumado. Não haveria necessidade da pantomima do 7 de setembro. Por outro lado, ao adiantar a tomada de decisão, o STF elevava exponencialmente o custo desta ação para os militares.

Na prática, tivessem os militares desobedecido Fux e no dia 7 as manifestações “flopassem”, os comandantes militares seriam processados por insubordinação e sairiam culpados de sedição. O preço era alto demais. A exigência da decisão ainda no dia 6 quebrava o plano bolsonarista

No meio desse imbróglio, duas figuras trabalhavam. De um lado, Alexandre de Morais, de posse das informações de inteligência, mapeava o financiamento dos movimentos e bloqueava as contas certas e as chave-pix, asfixiando os financiadores de Bolsonaro.

Muitas “caravanas” de locais perto de Brasília não puderam sair por conta da falta de dinheiro. O resultado foi o número reduzido de apoiadores.

O outro ator que agia em silêncio era o vice-governador do DF, Paco Britto (Avante) que atuou diretamente com as PM’s. Na falta de Ibaneis, a desculpa das PM’s para a inação não seria mais possível. O comportamento ambíguo do governo do DF (ora apoiando Bolsonaro ora obedecendo ao STF) já tensionava o ambiente.

Britto, no entanto, compreendeu que recairia sobre ele toda a culpa de uma malfadada sedição que ocorresse nas PM’s de Brasília. Novamente, o STF aumentava o custo da tomada de decisão e o vice precisou garantir as PM’s “na linha”.

Com a recomposição das linhas hierárquicas do Exército – a partir da cobrança do STF na madrugada do dia 6 – e com a lealdade das PM’s (ainda que a contragosto) garantidas, a margem de sucesso do golpe de Bolsonaro ficou pequena.

No final do dia 6, percebendo os planos naufragarem, os filhos do presidente foram até os manifestantes que faziam a “frente” para o movimento na tentativa de insuflar o apoio necessário para a sedição no dia seguinte e também impactar a PM

Não funcionou. Tirando os apoiadores mais exaltados, o restante dos apoiadores de Bolsonaro – aqueles que chamamos de “atores racionais” – fizeram um cálculo de custo/benefício de suas ações.

A tensa madrugada do dia 06 de setembro, que virou com fogos de artifício o tempo todo, determinou o fracasso do golpe do dia 7. O STF subiu o custo das ações políticas dos outros agentes e diminuiu o acesso destes agentes às informações que precisavam para a tomada de decisão.

As ações não foram coordenadas entre os atores políticos que saíram denunciando a posição claudicante da PM no dia 6 e o STF que colocou “a faca nos peitos” dos comandantes militares, mas, de alguma forma, elas foram complementares.

O golpe naufragou.

Não podemos, contudo, achar simplesmente que ele não foi dado (que Bolsonaro não cometeu crime porque “o resultado não foi alcançado” como é o argumento dos defensores do governo na CPI).

Se deixarem Bolsonaro solto, ele tem mais um 7 de setembro para tentar. E mais um ano para planejar – agora, sem os erros cometidos nessa intentada.