Monja beneditina alemã Hildegard von Bingen é o tema de estreia do podcast ‘Acervo 88’

Dando continuidade às estreias dos podcasts que vão consolidar a Câmara Municipal de João Pessoa (CMJP) na era do streaming, estreia, neste sábado (15), ao meio dia, o ‘Acervo 88’, um baú cheio de descobertas preciosas no universo da música. Com pesquisa e apresentação da jornalista Edileide Vilaça e edição de Alessandro Leite, o programa poderá ser conferido nas principais plataformas de streaming – Spotify e Deezer – e ainda na Rádio Câmara FM de João Pessoa. Para ter acesso nas plataformas, basta procurar no Spotify ou Deezer, Rádio Câmara JP.

Edileide Vilaça

O podcast vai apresentar pesquisas sobre músicas do mundo, conteúdos musicais raros e que estão disponíveis na internet em tempos de overdose de informações. É daqueles tipos de conteúdo musicais que você gostaria de descobrir, mas que por algum motivo, ainda não conheceu ou não pesquisou sobre. Tudo que você queria conhecer e não tem tempo de pesquisar. No Acervo 88 você é convidado a viajar num tempo sonoro onde o alimento da alma é a música do mundo.

 

“O 88 faz referência ao prefixo da Rádio Câmara de JP que é 88,7 FM”, ressaltou Edileide Vilaça. “Os primeiros registros de mulheres que se destacaram no campo da música surgem na Idade Média. O nome mais conhecido e estudado deste período é o da monja beneditina alemã Hildegard von Bingen. Ela foi uma visionária filósofa e escritora, sendo uma das mais importantes compositoras de todos os tempos. Suas composições possuem mais de 900 anos”, adiantou a apresentadora sobre o tema do primeiro episódio do programa. Ela destacou que o Acervo se trata de conteúdos que está buscando através de pesquisas. “Esse primeiro episódio mesmo, eu nem conhecia tamanha preciosidade e riqueza que é a vida e a obra daquela que é considerada uma feminista da Idade Média e que depois se tornou santa na Igreja Católica”, esclareceu Edileide que também revelou que Canhoto da Paraíba será o assunto do próximo podcast.

 

“Sou nativa do rádio. Meu projeto de mestrado foi um produto de web rádio. Fazer esse novo modelo de conteúdo em áudio, que é podcast, é novo pra mim. Eu estudei sobre podcast, mas efetivamente nunca tinha produzido nada nessa perspectiva. Tanto que acho que o Acervo 88 vai ter muito mais características do que já faço que é rádio. Vai ter o estilo de programa que faço pra Rádio Câmara, só que adaptado para podcast”, ponderou.

 

A jornalista fez questão de deixar claro que o programa não é um podcast de bate-papo, e sim um conteúdo documental, com fragmentos de pesquisas que estão abertos ao público para serem garimpados. “O segundo episódio, por exemplo, eu fui buscar em minhas coleções. É um campo infinito de possibilidades, de gêneros musicais, de regiões, estilos, épocas. Mas é importante dizer que eu não estou inventando nada. Tudo já está disponibilizado para o consumo coletivo”. Para ela, fazer as pesquisas está sendo um aprendizado e está aumentando seus conhecimentos sonoros. “Imagino que pode ser assim também para o público, especialmente aquelas pessoas que são apaixonadas por música e não conseguem descobrir tantas maravilhas que existem no universo da música do mundo que até podem estar disponíveis na internet, mas diante de tantas informações, inúmeros conteúdo, sites, redes sociais, links, acabam não conseguindo descobrir ou mapear tanto conteúdo bacana”, explicou.

 

“A Câmara de João Pessoa é a ‘Casa do Povo’, por isso, vai onde as pessoas estão. Estamos investindo forte no diálogo com o cidadão e esta nova etapa, com os podcasts, mostra isso. Podemos dizer que é uma prestação de serviço da Câmara para a sociedade”, comentou sobre a estreia com os novos produtos em audiocomunicação, o presidente da Câmara de João Pessoa, Dinho Dowsley (Avante).

 

 

Outros podcasts da CMJP

 

O ‘Saúde sem Fronteiras’ vai ao ar às quartas-feiras, sendo apresentado pelo médico sanitarista Daniel Beltrammi, que tira dúvidas e descomplica os assuntos mais relevantes sobre Saúde. Toda sexta-feira é dia de conferir o ‘Voz, Câmara, Ação’, com os comentários dos jornalistas Bruno Noronha e Rafaela Cristofoli sobre o que aconteceu na CMJP durante a semana, e o ´Hora Livre’, em que a jornalista Maria Eduarda Camilo dá dicas do que fazer nos momentos de folga.

Damião Rodrigues

Um pouco da história da monja alemã

Hildegard von Bingen: a mulher que uniu o céu e a terra

Mística, teóloga, escritora de livros de medicina natural e compositora. O Dia Internacional da Mulher é a data ideal para relembrar uma das personagens femininas mais interessantes da Idade Média.

Em 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica têxtil de Nova York cruzaram os braços na exigência de melhores condições de trabalhos e equiparação salarial com os homens. O protesto foi violentamente reprimido. Policiais e proprietários trancaram-nas na fábrica e atearam fogo. Cerca de 130 tecelãs morreram carbonizadas.

A data, escolhida desde 1910 como Dia Internacional da Mulher pelas feministas, foi ratificada oficialmente pela ONU em 1975. O Dia Internacional da Mulher é também uma boa data para recordar aquela que talvez tenha sido a primeira feminista da história – a abadessa alemã Hildegard von Bingen.

Num mundo medieval dominado pela insegurança, pelo clero e por senhores feudais, Von Bingen não se deixou dominar. Com muita habilidade e trabalho, construiu e administrou dois conventos, escreveu livros de teologia, medicina e ciências naturais, compôs música sacra. Sua maior batalha, no entanto, foi não se deixar calar.

Habilidades especiais

Quando Hildegard nasceu – não se pode precisar o dia em 1098 –, as primeiras cruzadas partiam para Jerusalém. Em 1095, o papa Urbano 2° conclamara a cristandade a “libertar a Terra Santa das mãos dos infiéis”, o que aconteceu quatro anos mais tarde.

Com os cruzados, não somente pagãos, judeus e muçulmanos foram combatidos, mas também ensinamentos do Oriente chegaram à Europa medieval.

Hildegard provinha de família nobre da região de Alzey, no sul da Alemanha. Já aos três anos de idade, a futura abadessa demonstrava habilidades visionárias. Mas foi somente aos 15 anos, como interna do convento junto ao mosteiro beneditino de Disibodenberg, que percebeu quão especial era a habilidade que possuía.

Como era de costume entre as famílias nobres medievais, meninas e meninos saíam de casa, já na idade de sete anos, para a formação como cavaleiros e freiras. Além disso, muitas famílias preferiam ver suas filhas num convento do que nas mãos de um bruto senhor feudal.

Trívio e quadrívio

Deutschland Hildegard von Bingen Hildegardisschrein in der Pfarrkirche von EibingenAlém da leitura dos escritos sagrados, a curiosa Hildegard pôde, no convento beneditino, aprender a ler e a escrever rudimentos de latim. Ela não teve, no entanto, um aprendizado sistemático dos cânones do conhecimento medieval baseados nas sete artes liberais, divididas em trívio (gramática, retórica e dialética) e quadrívio (aritmética, geometria, música e astronomia). Isto era reservado aos membros masculinos da ordem.

Hildegard viveu vários anos como uma simples freira. Com a morte da tutora Jutta, em 1136, ela se tornou a superiora do convento. Sempre acometida de doenças, tentava esconder suas visões. Aos 42 anos, recebeu a incumbência divina de escrevê-las. Por medo da tarefa, caiu doente. Somente após a intervenção de Volmar, seu padre-confessor, e do abade Kuno, ela começou sua obra.

Hildegard trabalhou durante cinco anos no livro Scivias (Saiba o caminho), ditando-o para Volmar, que corrigia gramaticalmente os escritos em latim. São Bernardo de Clairvaux, um dos maiores teólogos do século 12, interveio junto ao papa Eugênio 3° em prol de Hildegard. O papa enviou uma comissão para examinar o caráter de seus escritos. Não houve dúvidas, eram palavras de Deus.

Novas visões

Deutschland Abtei St. Hildegard
Pouco tempo depois, uma nova visão acometeu a futura abadessa. Deus lhe ordenava construir seu próprio convento, não mais sob a égide dos monges beneditinos. Estes ficaram bastante insatisfeitos com a decisão. O apoio papal tornara a visionária a atração do mosteiro em Disibodenberg. Hildegard caiu novamente doente, conseguindo assim vencer a resistência do abade Kuno, de quem se despede em 1150.

Acompanhada pelo monge Volmar, Hildegard construiu seu convento em Rupertsberg, próximo à cidade de Bingen, onde nunca morou, mas que lhe deu o nome pelo qual é conhecida até hoje.

Hildegard demonstrou grande talento como administradora. Conseguiu o apoio do papa e do arcebispo de Mainz na briga com os monges de Disibodenberg pelas terras, até então administradas pelos monges beneditinos, dadas pelas famílias das freiras que a acompanharam para o novo convento.Sem proteção, nenhum convento poderia sobreviver na Idade Média. A perspicácia de Hildegard fez com que tanto o arcebispo de Mainz como seu admirador Frederico Barbarossa, eleito imperador do Sacro Império Romano Germânico, se tornassem responsáveis pela segurança de Rupertsberg.

Causa e cura

No convento, a abadessa afrouxa as regras beneditinas. A música é muito importante para Hildegard. Para receberem o sacramento da comunhão, suas freiras, com anel no dedo e vestidas de branco e de flores, entoam canções que ela mesmo compunha. A idéia do casamento substitui a da morte na relação com Cristo, o que explica as procissões de freiras que antes pareciam fúnebres. Para Hildegard, a Igreja é uma mulher ao lado do Senhor.

Os trabalhos no hospital e na horta do convento levam a duas outras importantes obras da abadessa, o livro de ciências naturais Physica e o livro de medicina natural Causae et Curae, escritos entre 1151 e 1158. A obra de Hildegard sobre plantas medicinais escrita em 1158 é, até hoje, referência da medicina natural. Assim como São Bernardo de Clairvaux, Hildegard não acredita encontrar Deus na razão.

Ela aprendeu a olhar os lírios dos campos e a ver neles a presença divina que também levaria a cura de doenças. Para ela, o homem saudável estava em sintonia com Deus. Hildegard aliou a antiga medicina dos gregos, propagada por Galeno, à fé cristã. Para ela, micro e macrocosmo interagem lado a lado em sua percepção do homem e de Deus. Para honrar a Deus, o homem teria que interagir com seu meio-ambiente.

O século 12 trouxe muitas mudanças para a Idade Média, que se distanciava da idéia de um Deus absoluto. Hildegard foi aristotélica avant la lettre. Somente no século seguinte, São Tomás de Aquino, o mais sábio dos santos, resgataria teologicamente o aristotelismo na doutrina cristã.

Telúrica demais para ser santa

Por volta de 1160, novas visões divinas lhe levaram a pregar por diversas cidades alemães. Em Colônia, ela se opôs ao luxo do clero e à acídia dos cátaros. Em Trier, combateu a arrogância de clérigos e eruditos. Hildegard também se posicionou contra o fanatismo religioso da plebe. Em 1165, fundou em Eibingen um novo convento, que visitava duas vezes por semana.

Ela previu a própria morte para o dia 17 de setembro de 1179. E assim o foi. Hildegard von Bingen foi canonizada por decreto papal somente em 2012 pela Igreja Católica. Sua sagacidade também lhe gerara resistência e controvérsia. Talvez por isso seu processo de canonização tenha levado quase 900 anos.

Por outro lado, como poderia ter sido diferente para uma mulher que ousou penetrar um terreno destinado aos homens, alguém que sempre esteve tão próximo à terra?

Para Hildegard von Bingen, Deus existe para aqueles que achavam que ele existe. Pela mesma lógica, ela sempre foi santa para aqueles que achavam que ela o era. O boom da medicina natural prova que suas ideias ressoam até hoje, pois as doenças da sociedade industrial não podem ser curadas com os remédios que ela mesmo produz.